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	<title>Aikido Ilhabela</title>
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	<description>Site do grupo de Shin Shin Toitsu Aikido de Ilhabela</description>
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		<title>Princípios do Ki</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2008 11:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ki é uma palavra japonesa de difícil tradução. É usada em diferentes expressões para significar &#8220;atenção&#8221;, &#8220;energia&#8221; ou &#8220;espírito&#8221;. Um exemplo comum é &#8220;ki o tsukete kudasai&#8221;, que literalmente significa &#8220;Por favor, use seu ki&#8221; ou &#8220;Cuide-se&#8221;. Filosoficamente, o ki é a energia vital presente no universo. Sob um ponto de vista ocidental, o ki [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=160&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ki é uma palavra japonesa de difícil tradução. É usada em diferentes expressões para significar &#8220;atenção&#8221;, &#8220;energia&#8221; ou &#8220;espírito&#8221;. Um exemplo comum é &#8220;ki o tsukete kudasai&#8221;, que literalmente significa &#8220;Por favor, use seu ki&#8221; ou &#8220;Cuide-se&#8221;. Filosoficamente, o ki é a energia vital presente no universo. Sob um ponto de vista ocidental, o ki pode ser entendido como um direcionamento mental da energia física sem tensão muscular.</p>
<p>Tohei destaca a importância de desenvolver o ki tanto para o treinamento do Aikido como para a vida. A essência do desenvolvimento do ki está contida nos &#8220;Quatro Princípios para Coordenação entre Mente e Corpo&#8221;, elaborados por Tempu Nakamura e utilizados no Shin Shin Toitsu Aikido:</p>
<p><strong>1. Concentrar-se no Ponto-Um</strong> (<em>tanden</em> ou <em>seika-no-iten</em>)<br />
<strong>2. Relaxar completamente<br />
3. Manter o peso embaixo<br />
4. Expandir o ki</strong></p>
<p>O primeiro e o quarto são princípios da mente, enquanto o segundo e o terceiro referem-se ao corpo. Os quatro princípios na realidade são expressões do mesmo princípio: ao dedicar-se a um deles, automaticamente os outros três são observados.</p>
<p>O primeiro princípio, concentrar-se no ponto-um, refere-se à focalização mental em um ponto muito específico, o tanden ou seika-no-iten, que se situa no centro do corpo, num nível aproximadamente cinco centímetros abaixo do umbigo, que corresponde exatamente ao centro de gravidade do corpo. Focalizando o ponto-um, o indivíduo adquire estabilidade postural e naturalmente torna-se mais concentrado.</p>
<p>Relaxar completamente significa eliminar as tensões desnecessárias. Isto implica um relaxamento dinâmico diferente da simples frouxidão. O relaxamento dinâmico produz um estado de prontidão serena que permite o uso imediato e eficiente da energia física.</p>
<p>Manter o peso embaixo refere-se à estabilidade que se desenvolve com o relaxamento dinâmico. A tensão muscular torna o corpo rígido. Por exemplo, a maioria das pessoas, quando orientadas a fazer uma respiração profunda, encherá os pulmões e tensionará os ombros e a parte superior do tronco. Este enrigecimento faz com que o peso se concentre nessa parte do corpo, prejudicando a estabilidade e o equilíbrio físico. O relaxamento dinâmico, por outro lado, torna a parte superior do corpo mais receptiva e adaptável, como um bambu ao vento. Isto é &#8220;manter o peso embaixo&#8221;, que proporciona uma postura muito mais estável do que se obtém através da tensão muscular.</p>
<p>Expandir o ki refere-se ao direcionamento mental da energia física. Quando se realiza uma técnica do aikido ou qualquer tarefa diária, dois problemas podem surgir. Primeiro, a mente pode estar distraída da tarefa que se pretende realizar. Segundo, a mente pode prender-se a um detalhe mínimo dessa tarefa. É comum entre os aikidokas principiantes prestar atenção às mãos do atacante e lutar contra elas, em vez de prestar atenção ao oponente como um todo. A expansão do ki permite ao aikidoka pensar e ir além do ataque para uma esfera mais ampla de percepção.</p>
<p>A combinação destes princípios com o aikido conduz a uma postura física e mental que é estável, calma, relaxada, leve e poderosa. A unificação entre mente, corpo e espírito é o principal objetivo do Shin Shin Toitsu Aikido.</p>
<br />Publicado emtextos Tagged: ki, koichi tohei, princípios do ki <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/160/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/160/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=160&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O Ki no Aikido</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:50:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
				<category><![CDATA[textos]]></category>
		<category><![CDATA[itsuo tsuda]]></category>
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		<description><![CDATA[por Itsuo Tsuda (1914-1984) Texto original disponível em www.geocities.com/musubi00_2000/entreitsuo.html. Texto em português obtido em Shinbun Aiki &#8212; Traduzido por Rubens Caruso Júnior, do Aikido Nova Era Jundiaí. Itsuo Tsuda nasceu em 1914, filho mais velho de uma rica família japonesa. Em 1934 foi para a França, onde estudou sinologia e sociologia. Em 1940 retornou ao [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=86&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Itsuo Tsuda (1914-1984)</p>
<p>Texto original disponível em <a href="http://www.geocities.com/musubi00_2000/entreitsuo.html">www.geocities.com/musubi00_2000/entreitsuo.html</a>.<br />
Texto em português obtido em Shinbun Aiki &#8212; Traduzido por Rubens Caruso Júnior, do Aikido Nova Era Jundiaí.</p>
<p><em>Itsuo Tsuda nasceu em 1914, filho mais velho de uma rica família japonesa. Em 1934 foi para a França, onde estudou sinologia e sociologia. Em 1940 retornou ao Japão; em 1950 envolveu-se com vários aspectos culturais do Japão, estudando Teatro Nô com Mestre Hosada, Seitai com o Mestre Noguchi e Aikido com Morihei Ueshiba. Em 1970 retornou à Europa para disseminar o Movimento Regenerativo (prática terapêutica associada ao desenvolvimento de Ki) e suas idéias sobre o Ki. </em></p>
<p>***</p>
<p>Na Europa, as pessoas se interessam pelo Aikido por sua eficiência, pelo poder que se quer adquirir. Interessam-se pela técnica, pela aquisição de reflexos, do diploma, da posição na organização e dos privilégios que vem com tal posição. São os aspectos cartesianos do problema. Enquanto que o Ki, escapa a toda tentativa cartesiana de definição. Por isso, oficialmente não existe.</p>
<p>Gostaria, por minha parte, de oferecer uma modesta contribuição para a compreensão desta noção difícil de captar. Não escrevo com o fim de criar um manual para os praticantes de Aikido, e sim para situar o problema num contexto geral do pensamento ocidental. Não tem importância que haja interesse ou não pela prática desta arte, porém o Aikido merece ser mencionado mesmo que só seja pela nova visão que nos dá.</p>
<p>Muitas pessoas têm vindo pedir-me informações sobre o Aikido: “É eficiente?” Bem que poderiam ter também escolhido como outra solução uma arma de fogo ou fechaduras de segurança. Estas pessoas têm medo de serem atacadas, medo de morrer e medo de viver. Tem pressa por encontrar um meio qualquer que lhes permita, ao final de algumas lições, adquirir uma força extraordinária. Tenho rejeitado todas estas pessoas. Que ilusão. Poderíamos falar de eficácia se estivéssemos no nível do Mestre Ueshiba. É também ridículo falar disso em meu nível de desenvolvimento.</p>
<p>Os ocidentais têm tendência a acreditar que a aprendizagem consiste no desenvolvimento de um certo reflexo. Desde logo, o reflexo pode facilitar a organização do trabalho porque não se há de voltar ao início em cada momento, a partir dos detalhes mais insignificantes. Sem dúvida, o reflexo que se origina simplesmente nele mesmo não é nada. É um comportamento condicionado, um hábito. Não podendo-se avançar mais.</p>
<p>Tenho visto no Movimento Regenerativo esse movimento reflexo. Cada vez que se executa o mesmo movimento, exatamente com a mesma duração. Não existe um desenvolvimento em profundidade.</p>
<p>Recordo uma história que nos contou um professor no colégio, faz cerca de 50 anos. Um judoka, 3° Dan, estava em uma discoteca. Uma briga começou entre ele e um brigão. O judoka que possuía bons reflexos, aplicou-lhe um Hanegoshi, puxando em direção de si os dois braços do oponente. Ao mesmo tempo, este último sacou uma faca, com a ponta em direção do judoka. Com o mesmo gesto que lhe permitiu projetar seu adversário no ar, o judoka recebeu a faca no ventre. Se ele não tivesse tido este reflexo, teria salvado sua vida, em troca de alguns golpes e bofetões.</p>
<p>Algumas moças têm me perguntado o que fazer em caso de perigo. Por exemplo, quando o agressor as agarra de tal ou qual maneira. As ensino como poderiam se livrar de um agarramento. Com um pouco de astúcia comercial, poderia instituir uma classe com muita publicidade sensacionalista: (Senhoritas, defendam-se contra a agressão. Método eficaz.) Uma seleção de jovens bonitas que jogam o agressor, e eu sendo o atacante. Que trabalho mais agradável!</p>
<p>Não demorei em compreender a futilidade de tal ensinamento. O menor dos gestos é parte de um conjunto mais amplo e não se pode fazer um único gesto sem o domínio deste conjunto. Separar uma parte com um fim determinado, é impossível. A idéia de que se pode executar uma sucessão de movimentos programados com calma, como se faria com receitas de culinária, é tão ridícula como desastrosa.</p>
<p>Conheço duas soluções diametralmente opostas: uma pelo sangue frio e a outra pela força do inconsciente. </p>
<p>Uma mulher se deixou agarrar e no momento em que o agressor, satisfeito, se pôs a beijá-la, ela com decisão lhe mordeu a língua. No dia seguinte encontraram o culpado tratando de sua ferida com um médico. A mulher não recorda o que ocorreu. O demônio em seu corpo foi quem fez tudo. Recorda-se de ter ouvido um grito de dor. Porém quando voltou a si, não havia rastro do agressor. </p>
<p>Esta força do inconsciente, é o Ki. Pode ocorrer que mulheres fracas fisicamente consigam levantar um carro, quando se apresenta a necessidade. Não existe nenhuma técnica que nos permita realizar tal proeza. </p>
<p>Se as pessoas se interessam pelo reflexo, a técnica e a musculação, este é assunto delas. São aspectos que não me interessam muito. Se desenvolve-se o reflexo até o ponto que a pessoa se põem automaticamente em posição de combate cada vez que alguém aproxima-se dela com um martelo ou uma serra, cada vez que o chefe de departamento levanta a mão para coçar a cabeça, cada vez que o açougueiro pegar sua faca para cortar um pouco de carne, é muito possível que ela passe por uma pessoa pouco comum. Ela não mais poderá ir ao cabeleireiro, porque o mesmo segura uma navalha que pode cortar o seu pescoço “em um instante”. </p>
<p>Se falamos da técnica? Há pessoas que são verdadeiros repertórios vivos da técnica. Executam gestos como se fossem programados por um computador. Porém se sente, olhando-os, que lhes falta algo. Não há calor humano. São bonecos mecânicos.</p>
<p>O Mestre Ueshiba, quando eu o vi em seus últimos anos, parecia não ter a noção da técnica. Fazia gestos do nada e seus adversários caíam. Era como um menino que se diverte com qualquer coisa, de qualquer maneira. De vez em quando, perguntava: “Como se chama isso ?” Seus discípulos respondiam, dando-lhe um nome tirado da terminologia sabiamente construída. “Ah, é?” e seguia divertindo-se. É impossível aplicar nomes a todos os gestos. Ele era livre e natural como os ventos e as ondas. Desconcertava a quem desejava estruturar o Aikido.</p>
<p>Na Europa onde a noção do Ki não existe, é inevitável definir o Aikido como um esporte de combate. Quem diz esporte, diz musculação. </p>
<p>Por outro lado, é muito difícil dissuadir os jovens de fazer musculação. Para eles é uma necessidade fisiológica. Um esporte que não venha acompanhado de um desgaste físico não é um esporte, etc&#8230;</p>
<p>Precisamente, o Aikido não é um esporte para mim. O Mestre Ueshiba repetiu isso não sei quantas vezes: “O Aikido não é um esporte, não é uma arte de combate”. Desde o princípio, então, nos encontramos em um diálogo de surdos.</p>
<p>Não se trata em absoluto, para mim, de fazer musculação. Além de eu mesmo nunca ter sido um esportista. A hipertrofia muscular, como dizia Aléxis Carrel, não é menos perigosa que a atrofia visceral. Meus bíceps não aumentaram de volume desde que cheguei a idade de 45 anos. </p>
<p>O Aikido além disso, como todas as coisas, se presta às interpretações mais variadas. Não posso pretender dar validade à minha opinião. Simplesmente posso comunicar o que tenho visto, observado e constatado eu mesmo.</p>
<p>Conheci, faz alguns anos, um jovem professor de Aikido titulado em cultura física, era portanto um esportista. Porém lhe doíam os rins e acabou por perder toda a mobilidade dos quadris. Ocorreu-lhe depois o mesmo com os braços que, por sua vez, se tornaram rígidos até o ponto de não poder dobrar os cotovelos. É um dos muitos exemplos que tenho constatado entre as pessoas que praticam artes marciais: a rigidez do corpo, provocada por esforços musculares excessivos.</p>
<p>Outro professor de artes marciais, veio ver-me quando dava cursos na região. Tinha problemas: sua mulher estava doente, e nele doíam os rins e além disso sentia enjôos. Antes de apresentar-se frente aos alunos, tinha que colocar uma compressa fria sobre a nuca para poder dar a aula. Estava tão agitado que me dava pena vê-lo. </p>
<p>&#8220;Diga-me, o que devo fazer?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não estou qualificado profissionalmente para aconselhar-lhe, não faço mais que dirigir o Movimento Regenerador. Porém se quiser você pode vir a nossa sessão de movimento.&#8221;</p>
<p>&#8220;Confesso que sua resposta me deixou surpreso.&#8221;</p>
<p>&#8220;É que tenho que tirar férias nos próximos dias.&#8221;</p>
<p>&#8220;Então o que é que você queria exatamente? Uma medicina milagrosa? Uma panacéia (medicamento que serve para curar qualquer doença) do Extremo Oriente? Eu não conheço nenhuma.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tenho que dormir. Tenho que acordar. Tenho que trabalhar. Tenho que sair de férias. Estamos sobrecarregados pelo sistema social. Não podemos nos libertar dele. Existem em todo o lugar, medicinas milagrosas. Não faz falta alguma buscá-los: o sonífero, o estimulante,o calmante, etc&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não sou vendedor de milagres. Estes milagres parecem-me ao contrário muito escravizantes. Não me peça conselhos sobre estas coisas. Limito-me a simplesmente viver.&#8221;</p>
<p>Quando vejo estas pessoas agitadas, tenho a impressão de oferecer um copo de água inutilmente. Elas têm sede, porém suas mãos nervosas as impedem de segurá-lo. Enquanto isso, chega o ônibus e vejo seus braços agitarem-se fazendo sinal (para irem-se embora).</p>
<p>O que têm feito para chegar a este estado? Eles têm 15 ou 20 anos a menos do que eu. Como estarão quando tiverem 60 anos? Aos 60 anos, se tem acumulado bastante experiência de vida e isso há de servir utilmente para as próximas gerações. Nesta idade dizem, se está decrépito. Isto me faz pensar.</p>
<p>Há jovens orgulhosos de suas cicatrizes; a clavícula quebrada, o menisco fraturado, a dor nas costas, etc&#8230; São, segundo eles, tanto símbolos de virilidade como condecorações dadas pela sua valentia. Por minha parte contesto, que nasci homem e não sinto especialmente a necessidade de mostrar a virilidade com símbolos externos. Convém dizer também que me iniciei no Aikido com uma idade onde as pessoas em geral sentem a aproximação do envelhecimento. Minha visão é totalmente diferente da dos jovens batalhadores.</p>
<p>Tenho constatado na prática, um grande alívio de meu ser. O Aikido me permite fazer o vazio do cérebro. Nunca sofri de dores nos rins. Ao contrário, tenho podido aumentar a flexibilidade de meus quadris.</p>
<p>Porém isto não basta, tem que ser eficaz, dirão os jovens. O que entendem por eficácia? Projetar dois ou três agressores na rua e postar-se como um herói de cinema? Acreditam eles que este é o único perigo que existe na vida? Estão seguros de que não há alguém na janela da frente que esteja observando seus movimentos, com um rifle provido de um visor, e com o intuito de acomodar uma bala em suas cabeças? Além disso, é assim que um Presidente dos EUA e um Prêmio Nobel foram mortos. Não têm medo de que uma parede caia em cima deles ou que um guindaste os esmague? Que técnica aplicar quando vosso avião cai sobre o solo? Se os atacam micróbios desconhecidos, qual será vossa defesa? E quando dormem?</p>
<p>Tem-se que buscar medidas mais eficazes, dizem. Porém quando a morte os aponta, seja aqui ou em outro lugar, sempre os encontra. Um árabe em Bagdá se encontra com a morte que lhe diz “Virei buscá-lo amanhã pela tarde”. Dominado pelo medo, o árabe se coloca a galope sobre seu cavalo e chega a Samarra. Na hora indicada, a morte reaparece e lhe diz “Sabia que você viria por aqui”. </p>
<p>Seja qual for vosso método ou disciplina, se o mesmo leva à destruição, de nada serve a meus olhos.</p>
<p>O que é o Aikido? Não sei. Depende do que você espera. O que é o Cristianismo? Quando leio o Evangelho, compreendo Jesus. Porém com o que aconteceu depois, já não compreendo nada: cruzadas, inquisição, guerras de religião, etc&#8230; Agora vou falar brevemente da eficácia do Mestre Ueshiba. Se nenhum de seus discípulos conseguiu adquirir seu nível de eficácia, não tem culpa seu Aikido. Se Jesus vivesse na Europa cristianizada de hoje e refizesse o que fez há 20 séculos atrás, seria encarcerado por promover a desordem. O Aikido estruturado não reflete grande coisa da verdade do Mestre Ueshiba. </p>
<p>Numerosos ocidentais conhecem exemplos das proezas do Mestre Ueshiba. Cito aqui algumas, não para tirar proveito a favor do Aikido, e sim com o fim de poder realçar algo mais, a essência que sustenta sua arte.</p>
<p>Podemos dizer de maneira geral, que ele desafiou todas as leis conhecidas dos fenômenos físicos. Aqui a opinião é dividida entre os que acreditam sem poder explicá-lo, e os que o negam categoricamente. Como é possível que um homem de estatura pequena possa arremessar homens que o ultrapassam algumas vezes 20 ou mesmo 30 centímetros? Não somente um, mas vários atacantes por vez. Ele era inatacável tanto acordado como dormindo, de frente ou de costas, abertamente ou surpreendido, tanto com as mãos vazias como portando armas&#8230; inclusive com revólveres. Há de se acreditar nestas coisas ou refutá-las?</p>
<p>Existem várias posturas possíveis:</p>
<p>1. Refutar tudo o que não se explica, ainda que exista.<br />
2. Aceitar os feitos ainda que não sejamos capazes de explicá-los.<br />
3. Crer em tudo o que não exista.</p>
<p>A primeira das posturas, a dos racionalistas intransigentes, existe não só na Europa, mas também no Japão.</p>
<p>Taxar tudo o que se explica, de sobrenatural ou místico, é uma solução fácil que nos conduz a nada. Creio, ao contrário, que o Mestre Ueshiba foi um dos homens mais naturais que já conheci. </p>
<p>O Mestre Nogushi teve a oportunidade de ver o Mestre Ueshiba durante não sei qual reunião.</p>
<p>“O Mestre Ueshiba, é muito bom”, me disse, porém nada mais. Sua habilidade de julgamento é extraordinariamente certa. Ele pode detectar em uma fração de segundo o que alguém não havia visto depois de 30 anos. Permaneço, em todo caso, distante de ser partidário dos buscadores do sobrenatural.</p>
<p>Vi Mestre Ueshiba praticando com seus alunos no antigo dojo, uma construção de madeira que já não existe mais. Foi substituída por um edifício de concreto.</p>
<p>Vi-lhe, por exemplo, rodeado de uma dezena de alunos que armados cada um com um bastão lhe cercavam por todos os lados. Nestas condições é impossível para qualquer um fazer o menor movimento. Se move-se para a direita ou para esquerda, para frente ou para trás, é inevitável receber bastonadas no ventre ou no peito.</p>
<p>Ouço um grito, o Kiai, e vejo os alunos no solo com seus bastões. Ele está de pé sorridente. O que fez para escapar?</p>
<p>Tenho diante de mim uma foto tirada durante uma demonstração na grande festividade de Hibiya diante de 2000 espectadores. O Mestre Ueshiba segura com a mão direita um Bokken, ligeiramente dirigido para cima. Com graça, segura com sua mão esquerda uma parte de seu Hakama. Se só fosse isso, se veria a um ancião regando uma fileira de flores com um regador de boca larga. Contrariamente a isso, há três jovens fortes empurrando este bokken, agarrando-o com suas mãos, perpendicularmente ao sentido do Bokken.</p>
<p>Estão inclinados a 45° para exercer o máximo de sua força. Alguns instantes depois, o Mestre afrouxa o Bokken e os três jovens caem para frente em um perfeito conjunto; isto só é possível porque empurravam de verdade. Além disso conheço estes três jovens pessoalmente. Estão longe de ser complacentes, nem dispostos a fazer regalos.</p>
<p>Quando contei esta história para um francês, ele disse: “Matematicamente impossível” e não quis saber mais. Um bom cartesiano.</p>
<p>Hoje em dia a situação tem mudado um pouco, porque a mesma ciência tem demonstrado que o que é matematicamente impossível pode existir. Aqui nós temos ficado, porque a ciência não pode crer numa impossibilidade matemática. Seria ir contra a sua vocação fazê-lo.</p>
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		<title>Entrevista com Koichi Tohei Sensei</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:48:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Excerto do Aikido Journal #107 &#8211; Entrevista realizada em 11 de Julho de 1995<br />
Traduzido por Emy Yoshida &#8211; Dojo Central / Instituto Takemussu. Versão original da tradução <a href="http://www.aikikai.org.br/ent_tohe.html">aqui</a>.</p>
<p><em>O Aikido cresceu explosivamente desde a Segunda Guerra Mundial. Koichi Tohei, um destacado colaborador neste desenvolvimento, é talvez uma das pessoas mais qualificadas para falar a respeito da história do Aikido. A maioria dos shihan do aikido da atualidade (mesmo aqueles de sétimo dan ou acima), foram, em algum tempo, instruídos por Tohei.</p>
<p>Sentindo fortemente que as gerações futuras decidirão seu próprio destino, Tohei optou por falar muito pouco durante os anos. Afinal, com a condição de que nós mostrássemos as atividades da sua organização e o seu pensamento como são, Tohei Sensei finalmente concordou com esta entrevista exclusiva para o Aikido Journal.</p>
<p>Como o único aluno de Morihei Ueshiba a ser oficialmente detentor do décimo dan e uma figura que ocupou uma posição de central importância no mundo do Aikido pós-guerra, Tohei teve a oportunidade de falar francamente conosco a respeito de suas opiniões e experiências.</em></p>
<p><strong>Os Princípios do Céu e da Terra e a Minha Abordagem da Vida</strong></p>
<p>AJ: Sensei, fale-nos a respeito da sua abordagem do Aikido.</p>
<p>Tohei Sensei: Enquanto nos movemos em direção ao século XXI, o mundo em que vivemos vai se tornando mais e mais relativo. Por haver frente, também existe atrás. Por haver acima, existe também abaixo. Dentro deste mundo relativo, nada é absoluto em sua correção. Não é possível, por exemplo, que o norte seja correto enquanto que o sul não. Ambos são simplesmente &#8220;fatos&#8221;.</p>
<p>O único caminho seguro para estar absolutamente correto é evitar ser apanhado no redemoinho dos chamados fatos do mundo relativo, e ao invés disso, estar em concordância com os princípios absolutos do Céu e da Terra. Quando se tornam o padrão de julgamento, que está de acordo com os princípios do céu e da terra está correto, enquanto que o contrário, não.</p>
<p>A ação decisiva nasce de um entendimento daquilo que está de acordo com os princípios do Céu e da Terra. A falta desta compreensão conduz ao &#8220;esforço não razoável&#8221; ou muri, cujo significado literal é &#8220;ausência de princípio&#8221;, e deve ser evitado. Este sempre foi o meu modo de pensar e a razão pela qual evitei escrupulosamente agir de forma que envolvesse esforço inútil ou que fosse contra esses princípios.</p>
<p>O Aikido é essencialmente um caminho para estar em harmonia com o ki do Céu e da Terra. No entanto, muitos daqueles que estão envolvidos no budo tendem a falar de coisas que são ilógicas e envolvem um esforço inútil, coisas que são impossíveis. Mas o meu modo de vida é evitar fazer qualquer coisa que não esteja de acordo com um princípio.<br />
<strong><br />
Estórias e Realidade: O que realmente aprendi com Mestre Ueshiba?</strong></p>
<p>AJ: Qual foi a coisa mais importante que o senhor aprendeu com Morihei Ueshiba?</p>
<p>Tohei Sensei: A forma como as pessoas falam a respeito de ki hoje em dia tende ao ocultismo, mas eu diria que nunca fiz qualquer coisa, mesmo remotamente, envolvendo o oculto. Muito daquilo que Ueshiba Sensei falava, por outro lado, soava mesmo como oculto.</p>
<p>No meu caso, comecei a estudar Aikido porque vi que Ueshiba Sensei havia dominado verdadeiramente a arte do relaxamento. Era por estar relaxado de fato, que ele podia gerar tanto poder. Me tornei seu aluno na intenção de aprender isto com ele. Para ser honesto, nunca dei ouvidos para a maior parte das outras coisas que ele dizia.</p>
<p>Estórias sobre Ueshiba Sensei movendo-se instantaneamente ou arrancando pinheiros do chão e dobrando-os são apenas estórias. Sempre adverti as pessoas no Aikido a evitarem escrever sobre coisas como essa. Infelizmente, muitos pareceram não ouvir. Ao invés disso, elas simplesmente diminuíam o tamanho da árvore na estória, de algo enorme para somente cerca de 10 cm de diâmetro. Na realidade, é muito difícil arrancar até mesmo uma única raiz da terra, assim, como alguém no mundo poderia extrair um pinheiro de dez centímetros, especialmente estando de pé sobre seu sistema de raiz? Tais coisas não são nada além de exageros do tipo que são usados em contos à moda antiga. </p>
<p>As estórias se tornaram ainda mais incríveis desde que Ueshiba Sensei faleceu e agora as pessoas o têm movendo-se instantaneamente e reaparecendo de repente a um quilometro de distância e outras loucuras. Estive com Ueshiba Sensei durante muito tempo e posso dizer-lhes que ele não possuía poderes sobrenaturais.</p>
<p>AJ: Sensei, o senhor parece em muito boa forma para um homem perto dos setenta e seis anos. Sempre foi assim?</p>
<p>Tohei Sensei: Na verdade, eu era bastante frágil quando criança. Meu disse pai que eu precisava ficar mais forte e me fez começar judo, que treinei na Universidade Keio. Treinei duro e finalmente cresci mais forte, mas depois de entrar para o programa preparatório em Keio, um ataque de pleurite forçou um afastamento de um ano. Meu vigor tão duramente conquistado começou a sumir outra vez.</p>
<p>Incapaz de suportar o pensamento de perder aquilo pelo qual eu tinha trabalhado tanto para conseguir, substituí o judo por outras formas de treinamento tais como zazen (meditação Zen sentada) e misogi (purificação). Eu jurei que não deixaria minha força desaparecesse outra vez, mesmo que isso me matasse. Preocupar-me com a minha saúde e viver como um semi-inválido não fazia nada pela minha recuperação, e assim mandei tudo para o alto, e disse a mim mesmo que eu deveria lançar-me no treinamento, ainda que isso me matasse. O Aikido fazia parte desse treinamento também. Concentrei-me em manter-me forte e em algum ponto, os raios-X mostraram que a pleurite estava completamente curada. Surpreendentemente, eu tinha ficado bom.</p>
<p>Embora as idéias fossem um pouco vagas na época, eu tinha uma sensação de que foram minha mente e espírito (kokoro) que motivaram meu corpo. Compreendi que o estado mental é importante. A doença física é normal (embora indesejável), mas é inaceitável permitir que a doença se estenda à sua mente ou ao seu ki.</p>
<p>Em japonês, quando o corpo sofre de alguma disfunção, chamamos a isso yamai ou byo, que significa simplesmente &#8220;mal-estar&#8221;; mas quando o distúrbio se estende para o ki também, chamamos byoki. Assim, embora meu corpo possa estar afetado por algum tipo de mal-estar, não devo deixar que ele se estenda ao meu ki. Se a mente estiver saudável, o corpo seguirá. </p>
<p>Além disso, estando afastado do judo por quase dois anos, na época em que obtive o meu segundo dan, todos já tinham sido promovidos a quarto ou quinto dan. Mesmo muitos dos terceiro dan haviam progredido muito além de mim, e podiam lançar-me por todo o lado. Aquilo não era muito interessante e nem muito divertido.</p>
<p>Esperando fortalecer-me, fui para casa e comecei a chutar levemente os pilares ao redor da construção. Depois de fazer isso umas duas mil vezes por dia, contudo, as paredes começaram a cair. Minha irmã mais velha não gostou muito disso e me fez ir para fora, no jardim. Depois de umas poucas semanas, eu conseguia mover meus pés com a mesma agilidade e destreza que as mãos. Voltei ao dojo e era capaz de arremessar todos&gt;</p>
<p><strong>Conhecendo Morihei Ueshiba</strong></p>
<p>AJ: Quando o senhor entrou para o Ueshiba Dojo?</p>
<p>Tohei Sensei: Acho que foi em 1940. Kisaburo Osawa entrou cerca de uma semana depois. </p>
<p>Eu pensava no quanto era pobre o estado de coisas, tanto que eu podia treinar por minha conta por um par de semanas e voltar e lançar todos no dojo de judo. &#8220;Por que me aborrecer com uma arte marcial como essa? Pensei. Foi quando conheci Ueshiba Sensei. Shohei Mori, um dos meus seniores no clube de judo e que trabalhou na Manchurian Railway, me contou a respeito de um professor com uma força fenomenal e me perguntou se eu gostaria de conhecê-lo. Deu-me uma carta de apresentação e eu fui.</p>
<p>Ueshiba Sensei estava fora quando cheguei ao dojo e fui recebido por um uchideshi chamado Matsumoto. Perguntei a ele o que era o Aikido afinal. Ele respondeu, &#8220;Dê-me a sua mão e eu mostrarei.&#8221; Eu sabia que ele ia fazer alguma coisa comigo, assim estendi a minha mão esquerda ao invés da direita. Ficando com a direita livre, eu queria manter a minha mão mais forte na reserva. Ele agarrou meu pulso e aplicou um nikkyo contundente. Eu não havia fortalecido aquela parte do meu corpo, assim foi agonizante. Tenho certeza de que fiquei pálido, mas eu não ia deixar que ele levasse a melhor, assim agüentei a dor tanto quanto pude. Então desferi um soco com a minha mão direita e ele ficou perturbado e largou. </p>
<p>Eu comecei a pensar que se o aikido era aquilo, deveria esquecer e voltar para casa. Foi então que O Sensei retornou. Mostrei minha carta de apresentação e ele disse &#8221; Ah, sim, de Mr. Mori&#8230;&#8221; E então, como demonstração, começou a arremessar um dos maiores uchideshi pelo dojo.</p>
<p>Pensei que aquilo parecia algum tipo de farsa até que Ueshiba Sensei me disse para tirar o casaco e ir até ele. Assumi uma posição de judo e me movimentei para agarrá-lo. Para minha grande surpresa, ele me arremessou tão suave e velozmente que não pude sequer imaginar o que havia acontecido. Soube na hora que era aquilo que eu queria fazer. Pedi permissão para me inscrever imediatamente e comecei a ir ao dojo todos os dias, a partir da manhã seguinte. </p>
<p>Achei o treinamento muito estranho e misterioso, e estava ansioso para saber como as técnicas eram feitas. Quando alguém usa força para lançar você, há sempre alguma coisa que você pode fazer para reagir ou contra-atacar. Mas a estória é diferente quando a pessoa não está fazendo nada em particular e você continua a ser arremessado. Pensei, &#8220;Uau, isso sim!&#8221;</p>
<p>No começo eu não tinha idéia do que estava acontecendo. Até mesmo colegiais podiam me atirar sem qualquer problema. Achando tudo aquilo bastante ímpar, tentei agarrar mais e mais fortemente, mas é claro então que eu era apenas lançado com muito mais facilidade. </p>
<p>Ao mesmo tempo, eu continuava a treinar no Ichikukai (veja a entrevista com Hiroshi Tada para mais informações). Eu costumava ficar lá a noite inteira praticando zazen e misogi. O treinamento se dedicava a alcançar um estado iluminado no qual tanto o corpo como a mente se tornassem inteiramente livres de restrições. Era exaustivo e depois disso eu ia praticar aikido, quase morto de cansaço. Para minha surpresa, descobri que nesse estado, as pessoas que sempre podiam me arremessar ficavam completamente incapazes de fazê-lo! Além disso, eu não precisava fazer muito esforço para arremessá-los. Todos acharam estranho e diziam coisas como, &#8220;O quê está acontecendo com Tohei?. Ele &#8220;pula&#8221; a prática e volta mais forte do que nunca.!&#8221;</p>
<p>É bem mais difícil ser arremessado por alguém se você esvazia a sua força e também é muito mais fácil arremessar seu oponente. Pensei sobre O Sensei e compreendi que ele, sem dúvida, praticava o seu aikido relaxado. Foi quando de repente entendi o verdadeiro significado do &#8220;relaxamento&#8221;. </p>
<p>Meu aikido continuou a progredir à medida que eu continuava com o meu misogi e zazen. Cerca de seis meses depois, eu estava sendo até mesmo mandado para ensinar em lugares como a academia da polícia militar em Nakano e em outras academias particulares (juku) de Shumei Okawa. Ninguém exceto Sensei podia me arremessar. Levou apenas meio ano para me tornar capaz de obter aquele grau de habilidade, assim pensei que levar cinco ou dez anos é devagar demais. </p>
<p>Mesmo hoje a maioria das pessoas estão lutando para aprender as técnicas ao máximo, mas eu aprendia a respeito do ki desde o começo.</p>
<p>AJ: Quando foi que o Senhor entendeu que O Sensei havia dominado a &#8220;arte do relaxamento&#8221;?</p>
<p>Tohei Sensei: Provavelmente foi quando ele vivia em Ayabe e estava profundamente envolvido com a religião Omoto. Ueshiba Sensei sempre contava uma estória sobre um dia em ele estava em pé próximo a um poço se enxugando depois do treino quando de repente entendeu que seu corpo se tornara perfeito e invencível, e compreendeu com uma clareza notável o significado dos sons dos pássaros e insetos e tudo o mais ao seu redor. Aparentemente, esse estado durou cerca de cinco minutos, mas acho que foi quando ele dominou a arte do relaxamento. </p>
<p>Infelizmente, ele sempre falava sobre essa experiência usando expressões religiosas, que eram mais ou menos incompreensíveis para os outros.</p>
<p>Antes da guerra, Sensei ensinava no Naval Staff College, onde tinha por aluno o Príncipe Takamatsu (um irmão mais novo do Imperador Showa). Em certa ocasião, o Príncipe apontou para Ueshiba Sensei e disse, &#8220;Tente levantar aquele senhor &#8220;. Quatro fortes marinheiros tentaram de tudo para levantá-lo, mas não conseguiram. </p>
<p>Sensei disse na época, &#8220;Todos os espíritos divinos do Céu e da Terra entraram em meu corpo e eu me tornei imóvel como uma rocha&#8221;. Todos entenderam literalmente e acreditaram nele. Eu o ouvi dizer esse tipo de coisa centenas de vezes.</p>
<p>Por meu lado, nunca tive seres divinos entrando em meu corpo. Nunca pus muita fé nesse tipo de explicação ilógica. </p>
<p>Uma vez quando estava com Sensei no Havaí, havia uma demonstração em que se esperava que dois fortes alunos havaianos tentariam me levantar. Eles sentiam que não conseguiriam, assim não estavam muito preocupados. Mas Sensei, que observava, levantou-se dizendo, &#8220;Parem, vocês podem levantar Tohei, podem levantá-lo!!. Parem, façam-nos parar! Esta demonstração não está boa!&#8221;</p>
<p>Sabe, eu fiquei na rua bebendo até três horas da manhã na noite anterior e Sensei sabia das condições em que voltei para casa. Ele disse, &#8220;É claro que os deuses não vão entrar em um bêbado como você! Se o fizerem, todos ficarão tontos!&#8221; É por isso que ele achava que eram capazes de me levantar.</p>
<p>Na realidade, este tipo de coisa nada tem a ver com deuses ou espíritos. É apenas uma questão de possuir um centro de gravidade baixo. Sei disso e é o que ensino a todos os meus alunos. Isso não significaria nada se apenas algumas pessoas especiais possam fazer isso. Estas coisas têm que ser acessíveis para todos se realmente têm significado.</p>
<p>As pessoas com os chamados &#8220;poderes sobrenaturais&#8221; são normalmente as únicas que podem fazer aquilo que afirmam. Os outros não podem fazer o que elas fazem e elas não podem ensinar, porque aquilo que fazem não é real; é farsa. Qualquer um pode fazer o que ensino. Elas estão vivas nas técnicas do aikido tal como são. Tudo o que você precisa saber é como fazer certo, e vê-las como poderes sobrenaturais que requerem a presença de algum deus ou outra coisa assim é um grande engano. Vejo isto como minha responsabilidade para ensinar corretamente. </p>
<p><strong>A personalidade de Morihei Ueshiba</strong></p>
<p>AJ: Havia algumas personalidades notáveis no dojo em 1940 ou 1941 &#8211; alguém que pudesse mais tarde fazer um nome por si mesmo?</p>
<p>Tohei Sensei: Não havia ninguém assim quando cheguei. Não havia alunos e raramente algum uchideshi.</p>
<p>AJ: Quais foram as suas impressões mais fortes de Ueshiba Sensei?</p>
<p>Tohei Sensei: Ele me parecia um senhor muito simpático. Sorrindo, você sabe. De muitas maneiras, ele tinha uma personalidade bastante infantil.</p>
<p>AJ: Temos uns poucos documentos a respeito de O Sensei, mas é ainda muito difícil conseguir uma foto dele em seu dia-a-dia. Ele conversava sobre coisas corriqueiras, assuntos de todo o dia? Nas gravações que temos, ele quase que parece ser de outro planeta. </p>
<p>Tohei Sensei: Sim, entendo o quê você quer dizer. Certamente ele falava.</p>
<p>AJ: Ouvi dizer que algumas vezes, ele explodia de raiva de repente.</p>
<p>Tohei Sensei: Sim, isso acontecia com freqüência. Ele era gentil com as mulheres, todavia. Curiosamente, sua raiva nunca era direcionada em especial à pessoa com quem se supunha, estivesse zangado. Era como se ele estivesse apenas furioso consigo mesmo, incapaz de ou não desejando dirigir sua raiva ao objeto.</p>
<p>Uma vez um jovem aluno chamado Kurita notou que Sensei moveu-se um pouco em sua cadeira e foi ajustá-la para ele. Sensei explodiu e pediu para saber o que ele estava fazendo. O pobre rapaz não tinha idéia do que estava acontecendo até que eu expliquei que Sensei interpretou mal a ação, tomando-a como algum tipo de brincadeira.</p>
<p>AJ: Qual foi a atitude de O Sensei quando o senhor começou a basear seus ensinamentos nos princípios do ki?</p>
<p>Tohei Sensei: Ele ficou enciumado e disse às pessoas que não me dessem ouvidos. Ele dizia, &#8220;O aikido é meu, e não de Tohei. Não escutem o que Tohei diz.&#8221; Ele aparecia no dojo dizendo coisas assim, especialmente quando eu ensinava um grupo de mulheres. A esse respeito, ele era bastante infantil, em sua objetividade e falta de sofisticação &#8211; muito espontâneo e inocente.</p>
<p>Pessoas ligadas a várias religiões vinham ao dojo e tiravam dinheiro dele , bajulando-o com nomes como &#8220;Morihei Ueshiba, o kami do aikido.&#8221; Dificilmente ele gastava dinheiro consigo mesmo, mas parecia sempre estar sempre atrás de dinheiro porque continuava a desperdiçá-lo com pessoas como aquelas.</p>
<p><strong>Recebendo o Décimo Dan</strong></p>
<p>Fui o primeiro a ser oficialmente promovido a décimo dan. Originariamente, o oitavo dan era o grau máximo, mas Gozo Shioda , do Yoshinkan começou a promover muitas pessoas. Kisshomaru Ueshiba e o Sr.Osawa decidiram que seria útil para estabelecer mais firmemente o Hombu Dojo se criássemos o nono dan, que ofereceram para mim. Disse-lhes que eu achava desnecessário criar qualquer graduação mas alta do que as que já tínhamos, mas eles insistiram que isso ajudaria a fortalecer o Hombu Dojo, assim, finalmente concordei. Comemoramos a nova graduação em Ginza, um bairro de entretenimentos. Tanto Gozo Shioda como Kenji Tomiki estavam lá.</p>
<p>Enquanto estive nos Estados Unidos, entretanto, cinco outras pessoas foram também promovidas ao nono dan, e eles tentaram manter o fato em segredo de mim. Pensei que não havia nada a ser feito a respeito &#8211; coisas como essa iriam fatalmente acontecer com um professor como aquele &#8211; e decidi não me preocupar com isso.</p>
<p>Quando voltei a Tokyo, fiquei surpreso por encontrar Ueshiba Sensei me esperando no aeroporto &#8211; a primeira e única vez que ele havia feito isso. Quando chegamos em casa, ele me pegou para uns drinques e pouco depois eu sorria e começava a ficar alegre. Ele pareceu apreciar isso e até mesmo levantou-se para fazer uma dança tradicional que o divertia. Tudo isto, é claro, era porque ele pensou que eu devia estar irritado(irado?) com o fato dele ter promovido cinco outra pessoas ao nono dan, depois de me dizer que eu seria o único. Ao ver que eu não estava absolutamente irritado a respeito, ficou de bom humor outra vez. </p>
<p>Dois ou três dias depois, ele começou a me pedir que aceitasse o décimo dan. Eu disse, &#8220;Sensei, por favor não me peça para fazer isso. Se o senhor fizer de mim décimo dan, isso não terá mais fim!&#8221; Ele concordou com o meu pedido e assim permaneci nono dan por um tempo. Cerca de três anos depois, entretanto, pouco antes do câncer tomá-lo, ele me pediu outra vez. Disse &#8220;Koichi-chan, por favor, aceite o décimo dan.&#8221; Me senti obrigado a concordar, porque seria desrespeitoso continuar a recusar e fazê-lo implorar para que eu o aceitasse.</p>
<p>Não demorou muito para que as pessoas dissessem que eu não era o único a receber o décimo dan. Para evitar problemas, ofereci-ma para devolver o grau, mas Mr. Osawa interveio e conseguiu que fosse colocado o numero &#8220;1&#8243; em meu certificado para atestar este, e não os outros, era oficial. Houve também uma grande festa no Akasaka Prince Hotel para celebrar a promoção. </p>
<p>Desde que me separei do Aikikai, ninguém mais foi admitido ao grau de décimo dan, mas tão logo parti, todos começaram a reclamá-lo.</p>
<p>AJ: O Senhor disse que ao começar a fundamentar os seus ensinamentos nos princípios do ki, O Sensei ficou enciumado e disse a todos que não lhe dessem ouvidos. Por outro lado, ele o promoveu a décimo dan. Quais eram suas intenções ao agir assim? Ele o estava reconhecendo ou não?</p>
<p>Tohei Sensei: Acho que ele me reconheceu e aceitou. Ele estava bem consciente de que não havia outro igual a mim na época, e provavelmente sentiu que caso não me promovesse, não poderia promover outros. Mas por possuir aquela qualidade infantil, ele não pode esperar e foi adiante, fazendo-o de qualquer maneira. </p>
<p>AJ: Como Kisshomaru (o atual Doshu) viu a questão?</p>
<p>Tohei Sensei: Em princípio, Kisshomaru pretendeu manter uma certa distância do Aikido. Ele teria dito, &#8220;Meu pai e pessoas como o Sr. Tohei vieram a este mundo para fazer o Aikido&#8221;. Embora eu tenha nascido nesta família e com as suas tarefas, prefiro mais uma casa em uma colina da qual eu possa ir para o trabalho pela manhã e voltar à noite.&#8221; Ele esperava assumir um papel mais administrativo como diretor geral da organização, mais do que ser um centro dos ensinamentos. Quando Ueshiba Sensei faleceu, o Sr. Nao Sonoda veio com uma proposta de fazer de Kisshomaru um diretor geral e de mim, o Segundo Doshu. No entanto, Ueshiba Sensei havia me pedido para fazer tudo o que pudesse por Kisshomaru, e assim fiz todos os esforços para que ele assumisse o papel que o colocava tanto como o centro dos ensinamentos como da administração, que é como finalmente funcionou.</p>
<p>Tive o privilégio de estar ao lado de Sensei durante as suas últimas horas. Disse-me, &#8220;Koichi-chan, é você? Quero pedir-lhe para, por favor, fazer aquilo que puder por meu filho.&#8221; Respondi que embora eu nada tivesse com aquilo, ele não tinha nada com que se preocupar. &#8220;Está bem&#8230; Peço isto a você&#8221;, ele disse, e pouco depois, deu seu último suspiro.</p>
<p>O Sr. Sonoda sugeriu muitas vezes que eu deveria me tornar o Doshu, mas eu estava determinado a cumprir minha promessa. Para permitir que Kisshomaru assumisse um papel estável , lancei a idéia de que ele deveria ser tanto o Doshu como o diretor administrativo. Ele expressou sua gratidão por meus esforços na época, mas cerca de um ano mais tarde, sua atitude mudou. Foi exatamente nessa época que ele foi aos Estados Unidos e começou a tirar minha foto das paredes dos dojos lá.</p>
<p><strong>Separação do Aikikai</strong></p>
<p>AJ: Isso foi por volta de quando?</p>
<p>Tohei Sensei: Cerca de três anos depois que Ueshiba Sensei faleceu, em 1971 ou 1972. Antes disso, quase todos os dojos americanos mostravam ambas as fotos, mas Kisshomaru começou a mandar tirar a minha, colocando a sua no lugar. </p>
<p>Parece que o senhor gozou de um bom relacionamento durante o período imediatamente posterior à morte de O Sensei. Por que esse relacionamento se deteriorou depois?</p>
<p>Em 1971 , propus que ensinássemos especificamente o conceito de ki dentro do Aikikai. Senti que simplesmente ir através dos movimentos de prática das técnicas, mais ou menos num nível superficial não resultaria em Aikido, porque o aikido envolve ki. Sugeri a Mr. Osawa que criássemos uma aula de ki, como base para as pessoas no Aikido. Ele rejeitou a idéia no interesse do Aikikai, dizendo que o Aikido do Aikikai é o de Kisshomaru, e que por isso, os ensinamentos dele é que deveriam formar o núcleo do treinamento. Compreendi que não havia espaço para ensinar nesse ambiente e perguntei se estaria bem se eu continuasse com a minha sugestão fora do dojo. Isso seria ótimo, disseram, assim saí e criei uma aula que enfocou os ensinamentos sobre o ki e não as técnicas do Aikido.</p>
<p>Acho que os meus ensinamentos de ki contribuíram muito para o crescimento do Aikido. Simplesmente ir e vir na prática das técnicas do Aikido está bem para estudantes e outros jovens, mas as pessoas mais velhas com menos vigor tendem a abandonar pouco depois. Minhas palestras sobre ki eram bem recebidas por vários tipos de pessoas, incluindo grupos de executivos de alto nível &#8211; gerentes e presidentes e pessoas assim. Entretanto, tanto Mr. Osawa como Kisshomaru encararam aquilo que eu fazia com algo tirado do Aikido.</p>
<p>Nos Estados Unidos, as pessoas entendem o Aikido em termos de expressões como &#8221; um questão de mente&#8221;. No Japão, contudo, o Aikido é simplesmente chamado de Aikido, assim achei que era necessário estabelecer o conceito de ki também no Japão. </p>
<p>O Sr. Osawa era um homem muito bom e ouviu o que eu tinha a dizer. Na época, no entanto, ele se esforçava para apoiar Kisshomaru e tentou prevenir as pessoas de participarem do meu treinamento. </p>
<p>Eles me recusaram permissão para ensinar sobre ki dentro do Aikikai, mas eu disse que era livre para fazer o que quisesse fora. Com esse entendimento, comecei minha aula no Olympic Center. Provou ser muito popular e em três meses, cem alunos estavam inscritos. O Sr. Osawa ficou surpreso quando ouviu a respeito e veio a mim perguntar se eu estaria interessado em dar essa aula dentro do Aikikai! Fiquei muito irritado e disse que achava ser um pouco tarde para isso.</p>
<p>Nenhuma das pessoas que freqüentavam minha aula de ki sabia qualquer coisa sobre Aikido e não estavam interessadas, na verdade, em saber, já que não era aquilo que elas vinham aprender. Isso não teria acontecido se eu pudesse ter criado uma aula de ki dentro do Aikikai para começar. Dada a posição em que Mr. Osawa se encontrava, eu sabia que ele teve que recusar, mas acho que ele sempre se sentiu mal a respeito. Quando o quartel-general do Ki no Kenkyukai (Ki Society) foi construído na Prefeitura de Tochigi em 1990, o Sr. Osawa me contatou em particular e fez uma pequena contribuição.</p>
<p><strong>Estórias do Aikido no pós-guerra</strong></p>
<p>AJ: Que tipo de pessoa entrou para o Aikikai depois da guerra?</p>
<p>Tohei Sensei: Ensinei muitas das pessoas que hoje são professores&#8230; Tada, Arikawa, Yamaguchi, Okumura, Yamada, Chiba. Yamada ainda aparece de vez em quando.</p>
<p>AJ: O Senhor tem estórias memoráveis do treinamento na época ?</p>
<p>Tohei Sensei: Bem, nada que seja tão interessante. </p>
<p>Uma vez quando tomei uma bebedeira, eu treinava com Tamura, que está na França agora. Eu disse, &#8220;Veja, algumas vezes vou arremessá-lo forte, por isso, tenha cuidado.&#8221; Ele deve ter subestimado minhas palavras, pois quando o arremessei , ele foi voando pelo dojo e atravessou a janela de vidro com o braço. Ele deveria ter tentado parar nesse momento, mas ao invés disso, tentou puxar o braço imediatamente e acabou se ferindo nos cacos. Quando vi o que ele havia feito, fiquei zangado e sem pensar, gritei com ele por não ter esperado até que ele pudesse tirar o braço com segurança. Me arrependi imediatamente e compreendi que era cruel gritar com ele daquela maneira, no instante do ferimento. Me desculpei, levando-o para uma noitada na cidade. </p>
<p>Uma outra vez, levei Tamura e Chiba para uma demonstração em Hiratsuka. Foi durante a Ocupação e por isso, a maioria das demonstrações de vários tipos de artes marciais estavam proibidas. Para uma demonstração de Aikido, no entanto, foi dada permissão e a realizamos diante do comando da guarnição naquela área. Nossa explicação do princípio da não-competição no Aikido foi bem recebida e pareceu encontrar simpatia junto à audiência.</p>
<p>Durante a demonstração, fiz uma técnica na qual eu dei uma rasteira em Chiba com um jo. Ele próprio se ajustou para acompanhar o movimento. Mas eu detesto quando as pessoas fazem a queda desnecessária e propositadamente assim, então eu disse a ele que deixasse de fazer coisas desnecessárias e arremessei-o com toda a minha força. Ele virou completamente de ponta-cabeça a baixo e quase veio ao chão de cabeça. Por um momento, temi ter feito algo terrível a ele, e fiquei aliviado ao ver que , de alguma forma, ele aterrissara em segurança. </p>
<p>Havia um aluno meu que entrou para o Aikikai e era elogiado por seu bom ukemi e acompanhava Ueshiba Sensei com freqüência. Eu o usava como uke durante uma demonstração no Hibiya Kokaido (local de demonstrações de Aikido de todo o Japão antes do Budokan começar a ser usado), mas ele começou a rolar antes que eu tivesse feito o arremesso. Eu disse, &#8220;O quê diabos você está fazendo, caindo antes mesmo de começar a lançá-lo? Saia daqui!&#8221; Havia muitos espectadores presentes e acho que eles ficaram bem surpresos, mas foi também uma oportunidade inesperada para que vissem que as técnicas do Aikido não são uma farsa nem tampouco pré-arrajandas.</p>
<p>Quando eu estava com quarenta e nove anos, fiz um filme educativo de no qual pessoas como Masando Sasaki e Seishiro Endo aparecem como meus uke. Endo apareceu também num livro chamado Shinshin Toitsu Aikido, que é, na maior parte, de fotografias. Ensinei Saotome e Ichihashi também, vez ou outra. </p>
<p>AJ: O senhor tem alguma anedota interessante da época posterior à sua saída do Aikikai?</p>
<p>Tohei Sensei: Cerca de dez anos atrás na França, a grupo de alunos de Tamura veio para me ver. Aparentemente, Tamura pensou que devido a minha idade, eu provavelmente não estaria mais fazendo Aikido e deveria estar só trabalhando com ki. Parece que eles vieram para ver com seus próprias olhos se isso era realmente verdade e acho que também para dar uma olhada em um décimo dan. Escolhi oito deles para me atacarem em randori. Foram para casa dizendo, &#8220;Bem, parece que Tamura Sensei está enganado!&#8221;</p>
<p><strong>Compreensão de uma simples afirmação de Tempu Nakamura</strong></p>
<p>AJ: De que maneira o Shinshin Toitsu Aikido é diferente daquele do fundador Morihei Ueshiba?</p>
<p>Tohei Sensei: Quando fui ao Havaí e tentei usar as técnicas que havia aprendido com Ueshiba Sensei, descobri que muitas delas eram ineficientes. O que Sensei dizia e aquilo que fazia eram duas coisas diferentes. Por exemplo, a despeito do fato de que ele próprio estava muito relaxado, dizia aos seus alunos para fazer técnicas contundentes e poderosas. Quando cheguei ao Havaí, no entanto, havia dois sujeitos tão fortes quanto Akebono e Konishi (dois conhecidos lutadores de sumo havaianos) por todo o lugar. Simplesmente não há como usar força ou poder para triunfar contra esse tipo de força. </p>
<p>Quando você está firmemente imobilizado ou controlado, as partes do seu corpo que estão diretamente imobilizadas não podem se mover. Tudo o que você tem a fazer é iniciar um movimento com aquelas partes que você pode mexer, e a única maneira de fazer isso com sucesso é relaxar. Mesmo que o seu oponente o tenha preso com toda a sua força, você ainda pode lançá-lo num vôo se estiver relaxado ao fazer o arremesso. Isto é algo que experimentei em primeira-mão, durante aquela viagem ao Havaí e quando retornei ao Japão e dei uma outra olhada em Ueshiba Sensei, compreendi que ele, sem dúvida, aplicava sua técnicas em um estado muito relaxado.</p>
<p>Tohei Sensei: Enquanto estive com Ueshiba Sensei, estudava também com Tempu Nakamura. Foi ele quem primeiro me ensinou que &#8221; a mente move o corpo&#8221;. Essas palavras me atingiram como um raio de eletricidade e me abriram os olhos para o verdadeiro conhecimento do Aikido. A partir desse ponto, comecei a rever todas as minhas técnicas de Aikido. Joguei fora técnicas que iam contra a lógica, selecionando e reorganizando aquelas que senti que eram utilizáveis.</p>
<p>Hoje o meu Aikido consiste de cerca de 30% das técnicas de Ueshiba Sensei e de 70% minhas próprias. </p>
<p>Provavelmente, você pode dizer que foi no Havaí que fiz o meu treinamento mais importante (shugyo). A propósito, razão pela qual fui ao Havaí em primeiro lugar, foi a convite do Nishikai, um grupo dedicado ao Método Nishi de Saúde. Entretanto, suas intenções tinham a ver com competir com as minhas habilidades marciais contra alguns lutadores e para usar a renda do evento na construção do seu auditório. Não sabia disso até a véspera da minha partida e então já era tarde demais para recusar , assim me conformei e fui mesmo assim.</p>
<p>Os havaianos foram muito francos ao expressarem suas primeiras impressões a meu respeito. Disseram, &#8220;Nossa. Sensei, você é bem jovem, não é?&#8221; Então disseram, &#8220;Nossa, Sensei, você é bem pequeno&#8230;&#8221; Então foram direto ao ponto dizendo, &#8220;Sensei, você tem certeza de que pode realmente fazer isso?&#8221; Pensei que a única coisa a fazer era mostrar-lhes que eu podia e deixar que vissem por si mesmos. Depois daquilo, todos os artistas marciais do local e lutadores se tornaram meus alunos. O Hawaii Aikikai foi fundado oito meses depois e me fizeram um capitão honorário vitalício da força policial local. Ueshiba Sensei nunca foi testado dessa forma em sua vida inteira. </p>
<p>AJ: Gostaríamos de perguntar a respeito de técnicas com armas. No Aikikai Hombu Dojo há alguns shihan que afirmam que o Aikido moderno não tem técnicas com armas. Por outro lado, há professores como Morihiro Saito que integram as armas ao ensino de técnicas desarmadas (taijutsu). Na sua visão, as técnicas com armas são parte do Aikido ou não?</p>
<p>Tohei Sensei: Dizer que não há técnicas com armas em Aikido é ridículo. As pessoas dizem isso porque não as conhecem. Venha ver o que fazemos com as armas na Ki Society. Há também um vídeo educativo. Que no Aikido existem técnicas com armas é apenas senso comum e é uma vergonha que as pessoas digam o contrário. Fico pensando, será que devo ir lá e ensiná-los?</p>
<p>O Sr. Yoshio Sugino (Dojo-cho do ramo do Kawasaki Aikikai, Yushin Dojo, e décimo dan em Katori Shinto-ryu) assistiu a um dos nossos exames de treinamento físico. Vendo as técnicas com armas dos nossos membros, ele os elogiou, &#8220;Vejo que você tem dezenas de aspirantes a O-Sensei aqui.&#8221;</p>
<p>AJ: Tohei Sensei, agradecemos por seu tempo em conversar conosco.</p>
<br />Publicado ementrevistas, textos Tagged: aikido journal, entrevista, koichi tohei, tempu nakamura, ueshiba <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/84/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/84/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=84&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Depoimento</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:35:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<category><![CDATA[textos]]></category>
		<category><![CDATA[aprendizado]]></category>
		<category><![CDATA[mente-corpo]]></category>

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		<description><![CDATA[por Paulo Prestes De vez em quando uma ou outra pessoa vai ao nosso dojo assistir a um treino. Ao terminá-lo, pergunta-me se o que fazemos quando o parceiro nos pega é verdadeiro ou é mais um ensaio de telecast. É muito difícil para as pessoas acreditarem (ao menos do lado de fora do tatame) [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=79&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Paulo Prestes</p>
<p>De vez em quando uma ou outra pessoa vai ao nosso dojo assistir a um treino. Ao terminá-lo, pergunta-me se o que fazemos quando o parceiro nos pega é verdadeiro ou é mais um ensaio de telecast.</p>
<p>É muito difícil para as pessoas acreditarem (ao menos do lado de fora do tatame) que exista algo tão poderoso como o ki e não associá-lo a um daqueles filmes onde um mestre Jedi levanta a nave do discípulo com a força da mente. </p>
<p>Uma das passagens mais pitorescas de meu treinamento foi logo que comecei a praticar aikido. Ao ver meu sensei (de baixa estatura e não mais pesado do que eu) derrubando um aluno com facilidade, somente empostando as mãos como se fossem espadas (tegatana). </p>
<p>Achei que tudo não passava de uma encenação e que aquele aluno estava fingindo ser derrubado. Pedi então se podia segurá-lo; além do mais, aquela história do ki soava-me mais como religião do que como arte marcial. Segurei-o com toda minha força (como se minha vida dependesse disso) e fiquei decepecionado quando ouvi do sensei &#8220;Segure mais leve&#8221;. Aplicou-me a técnica com todo o cuidado (hoje entendo por que).</p>
<p>Pratiquei durante alguns anos todos aqueles exercícios e técnicas leves sem compreendê-los; afinal, poderia derrubar facilmente um oponente que estivesse segurando com aquela &#8220;falta de vigor&#8221;. Num desses treinos tive a mais dura lição.</p>
<p>Meu sensei pediu então que aplicasse-lhe uma técnica e disse que me seguraria somente com o ki. Sorri, certo de executar a técnica a mim pedida, mas não consegui. Coloquei então toda minha força na tentativa de executar a tal técnica, sem êxito. Meu sensei então disse-me calmamente: &#8220;Relaxe, encaixe seu centro e projete-o para frente, deixe seus braços flutuarem, sinta o ki&#8221;.</p>
<p>Para minha surpresa, ao seguir tais princípios fiz a técnica sem maiores dificuldades. Mal sabia que estava me ensinando os quatro princípios da coordenação mente-corpo:</p>
<p>- manter o ponto-um<br />
- relaxar completamente<br />
- manter o peso embaixo<br />
- expandir o ki</p>
<br />Publicado emdepoimentos, textos Tagged: aprendizado, depoimentos, mente-corpo <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/79/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/79/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=79&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A arte da reconciliação</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:20:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
				<category><![CDATA[textos]]></category>
		<category><![CDATA[reconciliação]]></category>
		<category><![CDATA[terry dobson]]></category>

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		<description><![CDATA[por Terry Dobson (*) O trem atravessava sacolejando os subúrbios de Tóquio numa modorrenta tarde de primavera. Nosso vagão estava comparativamente vazio: apenas algumas donas de casa com seus filhos e uns velhos indo fazer compras. Eu olhava distraído pela janela a monotonia das casas sempre iguais e das sebes cobertas de poeira. Chegando a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=74&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Terry Dobson (*)</p>
<p>O trem atravessava sacolejando os subúrbios de Tóquio numa modorrenta tarde de primavera. Nosso vagão estava comparativamente vazio: apenas algumas donas de casa com seus filhos e uns velhos indo fazer compras. Eu olhava distraído pela janela a monotonia das casas sempre iguais e das sebes cobertas de poeira. </p>
<p>Chegando a uma estação, as portas se abriram e, de repente, a quietude da tarde foi rompida por um homem que entrou cambaleando no nosso vagão, gritando com violência imprecações incompreensíveis. Era um homem forte, encorpado, com roupas de operário. Estava bêbado e imundo. Aos berros, esbofeteou uma mulher que carregava um bebezinho. A força do tapa fez com que ela fosse cair no colo de um casal idoso. Só por um milagre nada aconteceu ao bebê. </p>
<p>Aterrorizado, o casal deu um pulo e fugiu correndo para a outra extremidade do vagão. O operário tentou ainda dar um pontapé na velha, mas errou a mira e ela conseguiu escapar. Isso o deixou em tal estado de fúria que agarrou a haste de metal no meio do vagão e tentou arrancá-la do balaústre. Pude ver que uma das suas mãos estava ferida e sangrava. O trem seguiu em frente, com os passageiros paralisados de medo. </p>
<p>Eu me levantei.Na época, cerca de vinte anos atrás, eu era jovem e estava em<br />
excelente forma física. Vinha treinando oito horas de aikidô quase todos os dias há quase três anos. Gostava de lutar corpo a corpo e me considerava bom de briga. O problema é que minhas habilidades marciais nunca haviam sido testadas em um combate de verdade. Nós alunos de aikidô somos proibidos de lutar.</p>
<p>&#8220;Aikidô&#8221;, meu mestre não cansava de repetir (*), &#8220;é a arte da reconciliação. Aquele cuja mente deseja brigar perdeu o elo com o universo. Se tentarem dominar as pessoas, estarão derrotados de antemão. Nós estudamos como resolver conflitos, não como iniciá-los.&#8221;</p>
<p>Eu ouvia essas palavras e me esforçava. Chegava a atravessar a rua para evitar os chimpira, os pungas dos videogames que costumam vadiar perto das estações de trem. Ficava exultado com minha própria tolerância e me considerava um valentão reverente, piedoso mesmo. No fundo do coração, porém, desejava uma oportunidade absolutamente legítima em que pudesse salvar os inocentes destruindo os culpados. </p>
<p>&#8220;Chegou o dia!&#8221; &#8211; pensei comigo mesmo enquanto me levantava. &#8220;Há pessoas correndo perigo e se eu não fizer alguma coisa é bem possível que elas acabem se ferindo&#8221;. Quando me viu levantando, o bêbado percebeu a chance de canalizar a sua ira.</p>
<p>- Ah! &#8211; rugiu ele. &#8211; Um estrangeiro! Você está precisando de uma lição em boas maneiras japonesas! </p>
<p>Eu estava de pé, segurando de leve nas alças presas ao teto do vagão, e lancei-lhe um olhar de nojo e desprezo. Pretendia acabar com a sua raça, mas precisava esperar que ele me agredisse primeiro. Queria que ficasse com raiva, por isso curvei os lábios e mandei-lhe um beijo insolente.</p>
<p>- Agora chega! &#8211; gritou ele. &#8211; Você vai levar uma lição. &#8211; E se preparou para me atacar. </p>
<p>Mas uma fração de segundo antes que ele pudesse se mexer, alguém deu um berro:</p>
<p>- Ei! </p>
<p>Foi um grito estridente, mas lembro-me que tinha um estranho timbre, jubiloso e cadenciado, como quando estamos procurando alguma coisa junto com um amigo e ele subitamente a encontra: &#8220;Ei!&#8221;.</p>
<p>Virei para a esquerda, o bêbado para a direita. Nós dois olhamos para<br />
um velhinho japonês que estava sentado em um dos bancos. Devia ter bem mais de setenta anos, esse minúsculo senhor, e vestia um kimono impecável. Não me deu a menor atenção, mas sorriu com alegria para o operário, como se tivesse um importantíssimo e delicioso segredo para lhe contar.</p>
<p>- Vem aqui! &#8211; disse o velhinho num tom coloquial e amistoso. &#8211; Vem aqui conversar comigo &#8211; insistiu, chamando-o com um aceno de mão. </p>
<p>O homenzarrão obedeceu, mas postou os pés beligerantemente diante dele e gritou por cima do barulho das rodas nos trilhos:</p>
<p>- Por que diabos vou conversar com você? </p>
<p>Ele agora estava de costas para mim. Se o seu cotovelo se movesse um milímetro que fosse eu o esmagaria. Mas o velhinho continuou sorrindo para o operário.</p>
<p>- O que você andou bebendo? &#8211; perguntou, os olhos brilhando de interesse.</p>
<p>- Saquê &#8211; rosnou de volta o operário &#8211; e não é da sua conta! &#8211; completou, lançando perdigotos no rosto do velho. </p>
<p>- Que ótimo &#8211; retrucou o velho. &#8211; Excelente mesmo. Eu também adoro saquê! Todas as noites, eu e minha esposa &#8212; ela está com 76 anos, você sabe &#8212; aquecemos uma garrafinha de saquê e vamos até o jardim nos sentar num velho banco de madeira. Ficamos olhando o pôr-do-sol e vendo como vai indo o nosso caquizeiro. Foi meu bisavô quem plantou essa árvore, e estávamos preocupados achando que ela não fosse se<br />
recuperar das tempestades de gelo do último inverno. Mas a nossa arvorezinha saiu-se melhor do que esperávamos, ainda mais se considerarmos a má qualidade do solo. É gratificante olhar para ela quando levamos uma garrafinha de saquê para apreciar o final da tarde, mesmo quando chove! </p>
<p>E olhava para o operário, seus olhos reluzentes. O rosto do operário, que se esforçava para acompanhar a conversa do velhinho, foi se abrandando e seus punhos pouco a pouco relaxando.</p>
<p>- É, é bom. Eu também gosto de caqui&#8230; &#8211; mas sua voz acabou num sumiço.</p>
<p>- São deliciosos &#8211; concordou o velho sorrindo. &#8211; E tenho certeza de que você também tem uma ótima esposa.</p>
<p>- Não &#8211; retrucou o operário. &#8211; Minha esposa morreu. </p>
<p>Suavemente, acompanhando o balanço do trem, aquele homenzarrão começou a chorar.</p>
<p>- Eu não tenho esposa, eu não tenho casa, eu não tenho emprego. Eu só tenho vergonha de mim mesmo.</p>
<p>Lágrimas escorriam pelo seu rosto; um frêmito de desespero percorreu-lhe o corpo. Chegara a minha vez. Lá estava eu, com toda a minha imaculada inocência juvenil, com toda a minha vontade de tornar o mundo um lugar melhor para se viver, sentindo-me de repente mais sujo do que ele. </p>
<p>O trem chegou à minha estação. Enquanto as portas se abriam, ouvi o velho dizer solidariamente:</p>
<p>- Minha nossa, que desgraça. Sente-se aqui comigo e me diga o que houve. </p>
<p>Voltei-me para dar uma última olhada. O operário escarrapachara-se no banco, a cabeça no colo do velhinho, que afagava com ternura seus cabelos emaranhados e sebosos. </p>
<p>Enquanto o trem se afastava, sentei-me num banco da estação. O que eu pretendera resolver pela força fora alcançado com algumas palavras meigas. Eu acabara de presenciar o aikidô num combate de verdade, e a sua essência era o amor. A partir de agora teria que praticar a arte com um espírito totalmente diferente. Muito tempo passaria antes que eu voltasse a falar sobre a resolução de conflito. </p>
<p>(*) Nota do webmaster: Terry Dobson foi um dos primeiros discípulos estrangeiros de Morihei Ueshiba, fundador do Aikido. Ele aparece em diversos filmes de O-Sensei como uchideshi (aluno interno). </p>
<br />Publicado emtextos Tagged: reconciliação, terry dobson <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/74/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/74/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=74&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A importância do treinamento</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:16:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<category><![CDATA[kisshomaru ueshiba]]></category>
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		<description><![CDATA[por Kisshomaru Ueshiba, o 2º Doshu do Aikido Trecho do livro “O Espírito do Aikido” A única maneira de apreender o significado do Aikido e de obter algum benefício, palpável ou não, é praticar realmente a arte. A maioria dos praticantes passou por um processo assim: começam com dúvidas e perguntas, são iniciados na prática [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=72&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Kisshomaru Ueshiba, o 2º Doshu do Aikido<br />
Trecho do livro “O Espírito do Aikido”</p>
<p>A única maneira de apreender o significado do Aikido e de obter algum benefício, palpável ou não, é praticar realmente a arte. A maioria dos praticantes passou por um processo assim: começam com dúvidas e perguntas, são iniciados na prática e gradualmente se familiarizam com o método e a forma do Aikido. Mais tarde, sentem sua irresistível atração, e por fim, obtêm certa compreensão de sua profundidade imensurável. Quem tenha percorrido este ciclo terá aprendido várias coisas sobre o Aikido que o tornam uma arte marcial singular.</p>
<p>Em primeiro lugar, a pessoa se surpreenderá. Diferentemente da aparência suave vista nas demonstrações públicas, o Aikido pode ser realmente duro, vigoroso e dinâmico, com chaves de pulso fortes e golpes diretos (atemi). A despeito do que poderia supor, o Aikido dispõe de várias técnicas devastadoras, especialmente as destinadas a desarmar e a dominar o inimigo.</p>
<p>Em seguida, ela ficará chocada ao descobrir o quanto é complicado e difícil, mesmo no nível de principiante, executar as técnicas e movimentos básicos, tais como as quedas (ukemi), o distanciamento adequado (ma ai), a entrada (irimi), e outros movimentos de corpo (tai sabaki). O fato é que o corpo todo, não apenas os braços e as pernas, deve mover-se com rapidez, vigor e potência. É necessário um grau extraordinário de concentração mental e de agilidade, de equilíbrio e de reflexos para atuar com suavidade e rapidez.</p>
<p>Perceberá também a importância do controle da respiração, que inclui não somente a respiração normal, mas algo mais que se conecta com a energia ki. Este domínio do poder de pulsação é a base para a execução de qualquer movimento e garante a continuidade do fluxo dos movimentos. Além disso, está intimamente relacionado com a filosofia do Budô desenvolvida por mestre Ueshiba, como veremos adiante.</p>
<p>Por fim, à medida que o aluno avança, ficará admirado com o incontável número de técnicas com suas variações e aplicações, toda caracterizadas pela racionalidade e economia. Só depois de experimentar a complexidade dos movimentos do Aikido é que ele terá condições de apreciar o valor central do ki, tanto o individual como o universal. E então começará a sentir a profundidade e o refinamento do Aikido como arte marcial.<br />
Em síntese, somente através de um treinamento efetivo no Aikido é que podemos compreender a plenamente a dimensão essencial do Budô — o treinamento constante da mente e do corpo como disciplina básica para os seres humanos que trilham o caminho espiritual. Só então podemos compreender completamente a recusa de competições e torneios de Aikido e o motivo que justifica as demonstrações públicas como sendo uma amostra de treinamento constante, e não de exibição de ego.</p>
<br />Publicado emtextos Tagged: doshu, kisshomaru ueshiba, treinamento <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/72/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/72/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=72&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Entrevista com Chris Curtis Sensei</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:13:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
				<category><![CDATA[entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[textos]]></category>
		<category><![CDATA[chris curtis]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[hawaii]]></category>
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		<description><![CDATA[Texto original obtido em http://ki-aikido.dk/sider/curtisin.htm Traduzido por Christian Rocha &#8212; Shin Shin Toitsu Aikido Ilhabela Nota do tradutor: Chris Curtis Sensei é 7º dan de Ki-Aikido e presidente da Federação de Ki do Havaí. Entrevista concedida à Federação de Ki da Dinamarca no ano de 2000, em ocasião de um seminário internacional de Ki-Aikido naquele [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=69&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Texto original obtido em <a href="http://ki-aikido.dk/sider/curtisin.htm">http://ki-aikido.dk/sider/curtisin.htm</a><br />
Traduzido por Christian Rocha &#8212; Shin Shin Toitsu Aikido Ilhabela</p>
<p><em>Nota do tradutor: Chris Curtis Sensei é 7º dan de Ki-Aikido e presidente da Federação de Ki do Havaí. Entrevista concedida à Federação de Ki da Dinamarca no ano de 2000, em ocasião de um seminário internacional de Ki-Aikido naquele país.</em></p>
<p>***</p>
<p>Pergunta:<br />
<strong>Há tantas linhas de Aikido hoje no mundo, o sr. poderia me dizer o que há de especial no Shin Shin Toitsu Aikido? O que o torna diferente de outras linhas? </strong></p>
<p>Curtis Sensei:<br />
Bem, entre mim e você, eu posso dizer facilmente que a diferença é que nós praticamos os Princípios do Ki e as outras linhas geralmente não os praticam. Mas para que o público geral tenha uma melhor compreensão do que isso significa, talvez eu deva dizer como o Shin Shin Toitsu veio a ser desenvolvido, e em particular em meu caso, como ele veio para o Ocidente, especificamente para o Havaí. </p>
<p>Eu vivo em Maui, Havaí, e esta ilha tem uma relação muito especial e íntima com o Japão. Isto não se deve apenas à proximidade física, por ser mais próximo do Japão do que de outros países do mundo, mas porque aqui temos uma comunidade japonesa muito grande e ativa. Em 1953, Mestre Koichi Tohei, meu sensei no Japão e fundador da Ki no Kenkyukai (Ki Society International) e do Shin Shin Toitsu Aikido (Aikido com mente e corpo unificados), veio pela primeira vez para o Ocidente, para Maui, Havaí. Um grupo chamado Nishikai, uma organização nipo-havaiana, convidou-o para ensinar seu Aikido para o Departamento de Polícia de Maui. Nesta época, o fundador do Aikido, Mestre Morihei Ueshiba, havia ensinado extensivamente no Japão, era muito respeitado e tinha uma grande escola com muitos discípulos mas nunca tinha saído do Japão. Assim, era o desejo de Mestre Ueshiba que Tohei Sensei viesse ao Havaí para começar a espalhar os ensinamentos do Aikido pelo mundo. Quando Tohei Sensei chegou ao Havaí e veio para o Departamento de Polícia de Maui, um homem chamado Shinichi Suzuki era oficial de polícia e foi indicado para ajudá-lo a se estabelecer (Shinichi Suzuki mais tarde se tornaria meu professor em Maui). O sr. Suzuki envolveu-se tanto na tarefa que imediatamente se tornou aluno de Tohei Sensei, que o convidou a liderar, como instrutor-chefe, o grupo de aikidokas que rapidamente se formou em Maui. Assim Suzuki Sensei teve uma relação muito próxima com Tohei Sensei desde o início e assumiu a responsabilidade de um instrutor-chefe praticamente desde seu primeiro dia de treinamento. </p>
<p>Quando Tohei Sensei começou a ensinar esse grupo no Havaí, ele percebeu que alguns dos seus métodos de ensino não eram tão eficientes quanto costumavam ser com os japoneses. Muitas das pessoas do Havaí são muito grandes, algumas com até 2m ou 2,10m de altura, às vezes pesando mais de 100kg, e Tohei Sensei é um homem muito pequeno, e muitas das técnicas mostraram-se ineficientes nessas condições. Ele percebeu também que os ocidentais pediam explicações que nenhum japonês se arriscaria a pedir nos treinos. Assim, desde o início ele teve que desenvolver uma forma mais eficiente de praticar o Aikido e um novo método de ensino para pessoas diferentes. Este fato veio de encontro com o que ele tinha pensado em seu treinamento no Japão (como explicarei mais tarde). Ele começou a desenvolver um Aikido muito mais relaxado e mentalmente centralizado, em vez de um Aikido fisicamente concentrado. Entretanto, cada vez que ele voltava ao Havaí (ele vinha para cá uma vez a cada dois anos e aqui permanecia por um ou dois meses) ele percebia que, mesmo ensinando aos havaianos um Aikido mentalmente centralizado, eles insistiam (por causa de seu costume de olhar o mundo de uma perspectiva física) em traduzir os ensinamentos em expressões físicas, uma espécie de expressão marcial, muito dura, usando mormente a parte superior do corpo &#8212; os braços e os ombros &#8212; para forçar o oponente a uma posição de submissão. Assim, ele ficou frustrado com seu esforço para nos ensinar o Aikido relaxado e mentalmente centralizado, e a partir daí começou a desenvolver métodos cada vez mais eficientes para ensinar a relaxar e experimentar a mesma liberdade de aprendizado que ele teve. No início sua tarefa foi muito direta e simples, que era nos ensinar a relaxar. E conforme seu desenvolvimento pessoal se aprofundava, ele passou a usar métodos cada vez mais sutis e sofisticados para transmitir a profundidade de sua percepção às pessoas. </p>
<p><strong>Qual era a relação de Tohei Sensei com seu mestre, O-Sensei? O conceito de relaxamento veio de seu mestre ou Tohei Sensei de algum modo descobriu coisas novas ou acrescentou uma nova compreensão à arte do Aikido?</strong></p>
<p>Tohei Sensei disse-me uma vez que logo que ele encontrou O-Sensei pela primeira vez ele ficou muito impressionado com sua habilidade de lançar as pessoas com aparentemente nenhum esforço físico. Ele ficou surpreso com aquilo e tentou fazer o mesmo, mas não era muito eficiente na tarefa. De fato, ele percebeu que nenhum dos alunos de O-Sensei eram capazes de fazer o que o mestre fazia. Tohei Sensei começou a ampliar e aperfeiçoar seu treinamento de modo ter uma melhor compreensão daquilo que seu mestre estava fazendo. Ele treinou com outra pessoa durante muito tempo, um homem chamado Tempu Nakamura. Este homem ensinou Tohei Sensei que a mente conduz o corpo. Além disso, Tohei Sensei costumava freqüentar a Ichikukai, uma escola em que as pessoas participavam de um severo período de três dias de orações em seiza, uma experiência muito cansativa e penosa. Tohei Sensei esteve nessa escola 67 vezes. Nenhuma outra pessoa conseguiu sequer aproximar-se desse número. Por causa da intensidade do treinamento na Ichikukai, ele retornava aos treinos das manhãs de segunda-feira com O-Sensei num estado de total esgotamento físico; a partir daí Tohei Sensei começou a perceber que quando ele estava mais cansado ele conseguia realizar com mais facilidade as técnicas ensinadas por O-Sensei. Assim, em acordo com seu treinamento com Tempu Nakamura (que o ensinou sobre a mente que conduz o corpo) e sua experiência na Ichikukai (que esgotava as energias de seu corpo físico e o obrigava a buscar outra fonte de energia), ele começou a entender que mesmo que O-Sensei não estivesse ensinando a unificação entre mente e corpo e técnicas de relaxamento, isso era de fato o que ele estava fazendo. O-Sensei era um homem muito religioso; seus estudos envolviam símbolos religiosos da tradição xintoísta e ele estava envolvido em uma seita chamada Omoto. Todos seus estudantes diziam &#8220;Eu não sei do que ele está falando&#8221;. Quando Shinichi Suzuki Sensei foi para o Japão para treinar com O-Sensei e Tohei Sensei, O-Sensei gostou muito dele e ficou muito contente de tê-lo por lá &#8212; um visitante do Havaí, nascido e criado no Havaí, embora de ascendência japonesa. E uma manhã depois da aula O-Sensei convidou Suzuki Sensei aos seus aposentos e fê-lo permanecer em seiza por uma hora enquanto O-Sensei falou-lhe sobre religião. Sem entender uma palavra, mas sem querer ser rude, Suzuki Sensei permaneceu em seiza dizendo &#8220;Hai Sensei! Hai Sensei!&#8221; e inclinando sua cabeça. Depois eles saíram para o dojo em que os alunos estavam treinando, muitos dos quais treinavam com O-Sensei havia muitos anos, e O-Sensei disse &#8220;O que há de errado com vocês? Este homem do Havaí entende tudo que eu digo, e vocês não entendem nada&#8221;. Mais tarde eles foram até Suzuki Sensei e perguntaram &#8220;O que ele disse? Diga-nos o que ele quer dizer!&#8221;, mas Suzuki disse-lhes apenas &#8220;Eu não sei, eu disse apenas &#8216;Hai Sensei, Hai Sensei&#8217;&#8221;.</p>
<p>O-Sensei era uma pessoa muito difícil de entender, seus ensinamentos eram muito elevados e refinados e muito cheios de metáforas e conceitos religiosos. Não eram ensinamentos diretos. Assim Tohei Sensei pensou &#8220;Ok! É por isso que ninguém pode fazer isso, porque ninguém entende o que ele está fazendo, porque ele não está ensinando o que ele está fazendo. Ele está mostrando o que ele está fazendo. Depende de vocês alunos discernir o ensinamento.&#8221; Assim Tohei Sensei foi o único aluno que desempenhou um esforço pessoal completo para captar os ensinamentos de seu mestre. O-Sensei reconheceu isso e o laureou como o primeiro 10º dan de Aikido e como instrutor chefe de sua escola [Hombu Dojo].</p>
<p>O-Sensei veio ao Havaí e abençoou o Maui Dojo em 1961 e aquele espaço durou até o ano passado [1999] quando finalmente tivemos que derrubá-lo e construir um novo espaço. Agora temos um Dojo muito bom e equipado com dois andares. O-Sensei teve uma relação muito especial com meu mestre Shinichi Suzuki. E, claro, Tohei Sensei era seu aluno favorito, ele era o professor carismático e dinâmico apto a espalhar seus ensinamentos pelo mundo, não apenas ao Havaí. Ele esteve em vários países. Mas nessa época O-Sensei estava perto do fim de sua vida; era 1969. A tradição no Japão é que a escola, qualquer escola de artes marciais, o status e o valor ou tradição daquela escola, deve permanecer com a família, ela passa de pai para filho. Neste caso Kisshomaru, o filho de O-Sensei, naquela época chamado de Waka Sensei, receberia a escola das mãos de O-Sensei quando este falecesse. Em seu leito de morte O-Sensei chamou Tohei Sensei e o fez prometer que honraria seu filho, Kisshomaru Ueshiba, como diretor da Aikikai. Tohei Sensei teria seu título de instrutor chefe e como tal seria responsável por toda a instrução. Mas como Tohei Sensei era muito mais poderoso, muito mais carismático e tinha muitos seguidores, O-Sensei temia que a escola fosse passada para Tohei Sensei, e ele não queria que a escola deixasse sua família. Ele fez Tohei Sensei prometer que ele permitiria Kisshomaru Ueshiba manter seu status de diretor e líder da escola e que Tohei Sensei não se oporia a isso e apenas ensinaria como instrutor chefe. O-Sensei tinha a impressão de que tudo estaria bem se Tohei Sensei concordasse com seus pedidos. E ele concordou. Mas logo que O-Sensei faleceu, os métodos que Tohei Sensei tinha desenvolvido a partir de sua experiência pessoal (não apenas sua compreensão da unificação mente-corpo, mas como conduzir as pessoas nesse caminho, como mostrar-lhes como fazer isso) começaram a encontrar um pouco de resistência por Kisshomaru Ueshiba, o Doshu. E ele pediu a Tohei Sensei &#8220;por favor não ensine dessa forma no Dojo, porque meu pai não ensinava assim&#8221;. Tohei Sensei tinha muito apreço pela escola e pelo Doshu e queria ensinar Aikido e permanecer nele, mas o Doshu cada vez mais o pressionava de modo a ensinar do modo como O-Sensei fazia, sem transmitir sua compreensão pessoal dos ensinamentos de O-Sensei. Essa situação tornou-se cada vez mais problemática e difícil. E finalmente ele concordou: &#8220;Tudo bem, eu não vou ensinar os princípios do Ki, vou criar minha própria escola à parte e vou ensinar Aikido somente aqui&#8221;. Então ele criou uma nova escola chamada Ki no Kenkyukai (Ki Society International). E muitos alunos do Hombu Dojo aprendiam os princípios do Ki com Tohei Sensei, e depois voltavam ao Hombu Dojo para treinar Aikido. E naturalmente, conforme o tempo passou, estes aikidokas tornaram-se muito poderosos. Se você aprende a relaxar, quando uma pessoa tenta movê-lo com força é muito fácil barrá-la e evitar que ela faça isso. E claro que todo tipo de dificuldade começou a surgir entre os alunos que praticavam os princípios do Ki e os que não praticavam. Começou a surgir uma divisão muito intensa entre duas turmas: os alunos de Tohei Sensei e os alunos leais ao Hombu Dojo original. Em 1973, Shinichi Suzuki Sensei e Tohei Sensei foram juntos a uma reunião com o Doshu e Osawa Sensei (um dos líderes do Hombu Dojo original). Tohei Sensei anunciou ao Doshu que estava renunciando ao posto de instrutor chefe e que formaria sua própria organização de Aikido sob a estrutura da Ki no Kenkyukai; ele seria chamado Shin Shin Toitsu Aikido, Aikido com mente e corpo unificados. Este foi o princípio do Aikido que nós praticamos hoje. </p>
<p><strong>O que o Shin Shin Toitsu Aikido pode ensinar ao homem moderno?</strong></p>
<p>Todos carregam consigo, conforme essas pessoas crescem através de suas rotinas de vida, um vago senso de instabilidade e separação em relação às pessoas ao seu redor. De modo a superar esse senso de vacuidade e separação, nós tentamos nos preencher com coisas, com pessoas, com substâncias e experiências. Alguns de nós vão muito longe para encontrar satisfação, mas invariavelmente terminam intensificando esse sentimento. Alguém que queira se sentir mais valoroso e realizado pode se tornar um político, ou ir muito longe para se tornar uma celebridade, talvez até escalar o Monte Everest ou dirigir um carro de corrida, ou tornar-se um grande esportista, e não há nada de errado com esses esforços já que eles promovem uma boa saúde, um intelecto consistente e uma vida emocional saudável. São boas ações, a não ser que as estejamos usando para preencher nosso vazio. Se é este o caso, então seremos infelizes, porque esse vazio não pode ser preenchido por algo que venha de fora. Devemos descobrir quem nós somos de verdade, o que são a verdadeira estabilidade, integridade e caráter, e de onde esses valores vêm. Esta é a busca que empreendemos no Aikido. Ela se inicia num nível muito fundamental, e esta é a verdadeira beleza do Aikido. É um caminho único, pela experiência que tive. Nunca encontrei qualquer outra prática que envolvesse a mente e o corpo de uma forma tão simples, elegante e sutil. Simplesmente aprender a manter a mente e o corpo unificados e não resistir ou entrar em colapso. Impressionante! </p>
<p>Há três posturas que podemos assumir diante dos desafios da vida. Um é uma espécie de resistência tensa. Quando uma força vem em nossa direção, tentamos combatê-la, entramos em conflito com ela, lutamos contra ela. Chamamos isso de mente combativa, ou reação animal. O segundo método de lidar com um conflito consiste em entrar em colapso diante de uma força muito forte. Talvez isso seja semelhante ao que fazemos ao final de um dia de trabalho árduo, quando estamos exaustos e sentamos numa bela poltrona, abrimos uma cerveja e basicamente cedemos ao cansaço e abandonamos a vida por uns instantes. Este segundo método pode ser chamado de &#8220;estado de relaxamento morto&#8221;. Ainda que se possa dizer que há calma e relaxamento em tal estado, não há nenhuma intensidade nisso. Se surge uma emergência, nós preferimos não estar em condições de lidar imediatamente com ela. Por outro lado, quando estamos lutando, estamos resistindo, estamos tensos e nervosos. Sim, há muita intensidade neste caso, mas não há calma. Entretanto, há um outro estado possível, em que temos calma, serenidade e paz e, ao mesmo tempo, estamos cheios de intensidade. Este é o estado que chamamos de Unificação Mente-Corpo. No Shin Shin Toitsu Aikido, aproximar-se deste conceito implica treinar em um dojo sob a orientação de um mestre que lhe mostrará como unificar mente e corpo. Então progressivamente, aos poucos, nós podemos começar a tentar mover-se com mente e corpo unificados. Mas logo descobriremos que só isso não é suficiente, e essa percepção nos conduz a algo essencial na prática do Aikido: desenvolvimento pessoal. Meu mestre Koichi Tohei Sensei é muito insistente em relação a esse tipo de treinamento. Ele sente que ninguém pode se desenvolver sem fazer algum tipo de esforço pessoal (como ele fez) que esteja acima e além do que é feito no dojo. No dojo o professor mostra o caminho, mas você deve encontrar uma forma de praticar aquele caminho de uma maneira muito pessoal e sincera. Temos desperdiçado muito tempo desenvolvendo o hábito errôneo de vermo-nos separadamente, de vermos um mundo dualista, de vermos &#8220;você aí tentando fazer algo comigo aqui&#8221;. Nós temos desenvolvido esse modo de ver as coisas e, apesar dos nosso esforços, isso continua a crescer. Esse ego é um mecanismo muito poderoso em nós. E o desenvolvemos ao ponto em que ele controla a maior parte de nossas vidas. Devemos, por isso, transformar nosso modo de pensar e nosso modo de viver em um estado unificado, não-dualista, em que não há nenhum senso de existência isolada, nenhuma separação entre o indivíduo e o Universo como um todo. Indivíduo e Universo não são duas coisas separadas. Mas sem dúvida o todo pode ser visto como uma corrente de existência, um constante movimento dessa unidade. E todas as ações da vida surgem dessa corrente, assim como ondas originam-se no oceano. Não separadas dele, elas são únicas e belas, elas têm vida. E no entanto vemos, ao final, que elas existem por causa do oceano. Sem o oceano elas não existiriam, assim devemos nos identificar com o oceano. </p>
<p>Mas como fazer isso? De modo a nos desenvolvermos completamente, precisamos da prática, do exercício. E há várias formas de se praticar o Aikido, mas a primeira forma é o que chamamos de Respiração Completa, ou Respiração Universal. Quando vi meu mestre Suzuki Sensei pela primeira vez, fiquei muito impressionado com sua calma e energia. Nunca tinha encontrado um homem que possuísse estas duas qualidades ao mesmo tempo. E era quase assustador para mim que alguém pudesse ser tão calmo e, por baixo daquela calma, ao mesmo tempo ter uma tremenda presença e intensidade. Tive uma sensação de êxtase, mas de perigo também, quando o encontrei. Então eu lhe perguntei &#8220;Como se chega a esse ponto? O sr. nasceu assim ou fez algo para tornar-se assim?&#8221;. Ele disse &#8220;Não, eu nasci como todo mundo. Se você quer ser como eu, você deve respirar uma hora todos os dias&#8221;. Então ele me mostrou como fazer essa respiração controlada, que todos podem aprender em um dojo de Shin Shin Toitsu Aikido. E logo em seguida, durante um mês, eu estava respirando uma hora por dia. Eu tinha que aprender, eu tinha que praticar. Apenas um pouco, cinco minutos por dia, dez minutos por dia, quinze minutos no dia seguinte. Mas finalmente eu alcancei a satisfação de respirar uma hora por dia, e desde então eu tenho respirado uma hora, às vezes duas horas ou mais, pela manhã. Todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, eu levanto cedo e pratico a respiração, e desta forma eu pratico a Unificação Mente-Corpo de um modo muito sereno e concentrado. É uma meditação, mas com um elemento adicional. Nós estamos realizando a Unificação Mente-Corpo pela respiração. Usamos nossa mente para acompanhar a respiração até o fim do Universo conforme expiramos. Usamos nossa mente para acompanhar nossa respiração até nosso ponto-um, até o centro de nossa existência, conforme inspiramos. Assim, usamos mente e corpo juntos, a respiração no corpo e a mente acompanhando essa respiração. Essa prática, se realizada adequadamente, nos dá uma grande sensação de calma e intensidade. E ao longo dos anos essa prática conduz a uma realização; a palavra que tenho para isso no Aikido é Reiseishin. Reiseishin é um estado de unificação muito poderoso, porém relaxado. Ele cresce progressivamente, como um balão dentro de nós. Esse &#8220;balão&#8221; logo ultrapassa os limites de nossa pele, ossos e todo nosso corpo e se torna cada vez maior até que tudo esteja contido nele; ele está cheio do mais potente vazio. É uma experiência paradoxal, porque esse espaço é vazio de pensamento, concepção, mas completa e profundamente cheio ao mesmo tempo. Nós nos sentimos unificados com o Universo. E então no decorrer do dia, quando você está conversando com sua esposa ou com seus filhos, ou seus colegas no trabalho ou seu chefe, ou quando qualquer tipo de dificuldade sobrevém, não há problema. Você não se vê isolado ou desprezível de forma alguma. Você está cheio de auto-confiança, e tem uma sensação de poder que não precisa ser demonstrado ou usado. Assim, o sentimento ao qual me referia no começo, essa nostalgia que costumamos ter, esse senso de isolamento, isso começa a se dissolver. Em seu lugar surge um senso de satisfação profunda e duradoura, que eu não sei se pode ser obtido de outra forma. Talvez haja outras escolas, provavelmente outros enfoques, diferentes tipos de meditação e de práticas que podem ser feitas. Eu não pratico muitas outras coisas. Eu pratico o Shin Shin Toitsu Aikido, e isso me conduziu ao estado de que eu lhe falei, e sou muito grato aos meus mestres por isso, Koichi Tohei Sensei no Japão e Shinichi Suzuki Sensei em Maui, porque ambos insistiram que se eu quisesse ser sério em relação a isso, se eu realmente quisesse mudar como ser humano, tornar-me uma pessoa melhor e não apenas um expert num dojo, eu teria que realizar esse tipo de treinamento. </p>
<p><strong>O que é necessário para uma pessoa trilhar o Caminho de que o sr. está falando? </strong></p>
<p>Bem, é necessário compromisso, em uma palavra. Compromisso é uma palavra assustador. Você sabe que há muitos gurus, muitos mentores espirituais trabalhando, felizmente, com as pessoas do mundo para ajudá-las. E para começar a trabalhar com um desses mentores espirituais, a primeira coisa que eles lhe pedirão é compromisso absoluto. E isso é bom, é muito bom! Mas isso também significa que seus ensinamentos estarão disponíveis para poucas pessoas &#8212; por ser uma pessoa rara, capaz de comprometer-se inteiramente com um caminho, que basicamente irá aniquilar seu ego, seu senso de individualidade. É muito difícil concordar com isso. Nós geralmente tentamos evitar esse tipo de coisa. Tudo que fazemos em nossas vidas é construir um ego forte, uma presença cada vez mais forte. Mesmo na prática do Aikido nós nos pegamos tentando construir nós mesmos, tornar-nos mais fortes, enquanto que a força verdadeira não vem dessa direção, ela vem do Universo. Mas nossa prática do Aikido é única no sentido de que nós não exigimos compromisso absoluto no começo. Nunca digo a um aluno &#8220;Você não pode vir e treinar aqui porque você não está comprometido com o Aikido&#8221;. Quem quiser treinar comigo, basta vir e treinar. Vou mostrar-lhe o Shin Shin Toitsu Aikido, a Unificação Mente-Corpo, vou ensinar-lhe a respirar, a estender o Ki, a manter o ponto-um, a relaxar completamente e a naturalmente manter o peso embaixo. Ótimo! Mas, definitivamente, ele pode querer se comprometer voluntariamente com o treinamento e com os ensinamentos. Porque ele verá por si mesmo que, se ele não se comprometer, ele não terá a chance de colher os benefícios desse treinamento. É necessário um grande compromisso para qualquer tipo de realização, qualquer mudança verdadeira. Só no Aikido dizemos &#8220;Seu treinamento é voluntário; você não tem que permanecer onde você está, é decisão sua&#8221;. Quando você assume o compromisso com a arte, e você realmente se decidiu a trilhar esse caminho, então eu direi &#8220;Ok! Agora você é um verdadeiro aluno&#8221;. Mas até então está tudo bem, e você será bem-vindo para treinar comigo a qualquer hora. Fico feliz por poder ensiná-lo. E você pode fazer isso pelo resto de sua vida, se você acha que deve. Nunca vou abandoná-lo, nunca vou dizer que você não é bom. Porque há sempre uma chance de você despertar. Cada pessoa está num nível diferente. Por isso, apenas continue vindo, ouvindo, treinando, experimentando, testando, tentando e descobrindo. E talvez uma hora você esteja em condições de assumir esse compromisso e tornar-se um verdadeiro estudante de Shin Shin Toitsu Aikido.</p>
<p><strong>O sr. poderia definir alguns dos conceitos que usa? Falamos sobre Unificação Mente-Corpo, o que é a mente em relação ao pensamento? Qual sua compreensão a respeito dessa Unificação? O sr. poderia definir o que é a mente? </strong></p>
<p>No Shin Shin Toitsu Aikido nós trabalhos com uma esfera de consciência. Chamamos isso de esfera de consciência mente-corpo. Quando falo de corpo, falo dessa esfera. Todas as coisas nascem da mente. O corpo é reflexo da mente, assim como o corpo é refletido num espelho. O que você faz com seu corpo diante de um espelho, será refletido com toda a precisão pelo espelho. Não há dúvida disso, não há como questionar esse fato. Mas o que muitas pessoas não entendem é que o que acontece no corpo é reflexo automático do que acontece na mente. É possível à mente mover-se sem mover o corpo, mas não é possível ao corpo mover-se sem o deslocamento da mente. Essa relação hierárquica entre mente e corpo não é bem compreendida pelo público, mas é essencial para entender o Aikido. Conforme desenvolvemos nosso treinamento no Shin Shin Toitsu Aikido, gradualmente desenvolvemos uma compreensão cada vez mais profunda sobre a mente. Mas a mente não é algo que se pode definir intelectualmente. Certamente há inúmeras e históricas tentativas de se explicar a mente de uma forma sábia. Mas a mente, da forma como a compreendo e a experimento, é uma espécie de linha de existência que deve ser experimentada individualmente. Não é algo que eu possa dizer &#8220;Ah, sim, isto é a mente&#8221; e então você a compreende. Não, de modo nenhum. Se você quer entender a mente, você deve praticar o que eu tenho explicado. Não é tão simples como dar uma simples explicação. Posso dizer-lhe o que fazer, e isso será como uma experiência científica: eu lhe dou uma ordem, &#8220;Ok, faça isto&#8221;, e então você vai e faz e toma essa prática para si. E então você volta e eu vou testar você e verificar se você tem praticado corretamente. Em caso positivo &#8212; você tem praticado com persistência e sinceridade suficientes &#8211;, os resultados serão vistos em você. Em caso negativo, eu lhe direi para praticar mais. Neste processo, o professor diz &#8220;Tente isto!&#8221;, e você pratica o que lhe foi transmitido, e então você voltará e mostrará sua experiência; este é o caminho tradicional. Não é como ir à faculdade e anotar ou memorizar uma lista de datas, absorver um campo de conhecimento. Não lidamos com esse tipo de conhecimento. Lidamos com sabedoria. Sabedoria não surge dos processos comuns. Você precisa realmente realizar o trabalho. Você tem que se sacrificar, você precisa se comprometer e sacrificar o que precisa exatamente ser sacrificado, o que quer que seja necessário. E você se aprofunda no ensinamento, na exata forma que o mestre lhe explica. E então você adquire experiência própria e tem que estabelecer uma relação pessoal com a Mente Universal, ou, em outras palavras, a Mente Original.</p>
<p><strong>O que aflige a maioria das pessoas são pensamentos e emoções. Qual a relação entre pensamentos, emoções e a Mente Original?</strong></p>
<p>Quando nascemos somos como uma lousa em branco, e, claro, imediatamente começamos a ter experiências. Quando somos crianças, somos como cães ou gatos, ou animais e plantas. Não temos autoconsciência. Temos uma espécie de liberdade na qual não nos preocupamos com o que irá acontecer no dia seguinte. Não lembramos ou tememos o que aconteceu no dia anterior. E não estamos ansiosos com nada além de conseguir alimento. Quando temos fome ou quando queremos dormir, nós somos muito zen, no sentido em que vivemos uma vida muito imediata. Muitas pessoas entendem mal essa condição, dizem que se trata de uma espécie de estado de iluminação, mas eu digo que não é. Iluminação significa que você possui esse estado natural, mas também é consciente ao mesmo tempo. Tohei Sensei diz &#8220;Somente os seres humanos têm o privilégio e a capacidade de perceber [o estado verdadeiro]&#8220;. Embora os animais possuam esse estado, eles não podem percebê-lo. Quando um cavalo relincha de medo ou excitação, não há hesitação, é algo instantâneo, imediato. Mas na maioria dos seres humanos há uma pausa que deve ser compreendida; um senso de confusão e falta de clareza que proíbe a ação livre e honesta. Num bebê isso pode acontecer, porque o bebê é como um animal. Gradualmente o bebê passar por experiências de separação, quando, por exemplo, sua mãe o deixa por alguns instantes; essas experiências começam a construir um senso de separação e isolamento, que causa hesitação, excesso de prudência, uma pausa na mente. E conforme isso acontece, o bebê começa a perder sua liberdade animal. Claro que isso é muito necessário se pretendemos viver neste mundo. Bebês devem se desenvolver para ter consciência dos resultados de suas ações. O indivíduo deve desenvolver essa autoconsciência. Em outras palavras, o que eu estou dizendo é que é necessário desenvolver um senso de individualidade, um ego, &#8220;eu sou&#8221;, a idéia de que somos especiais, num nível muito saudável, porque a autoconsciência não é nada além disso. Mas em algum momento, temos que perceber que com o ego vem o senso de isolamento, a distância do momento presente e a distância de outras pessoas. Assim, no espaço e no tempo temos uma espécie de solidão, de que eu falava no começo de nossa conversa, que produz nostalgia, vazio, saudades. E tentamos preencher isso com coisas externas, que acaba reforçando nosso senso de separação, acaba nos desligando ainda mais de todas as coisas. Talvez nos consideremos muito poderosos e tenhamos a atenção e a ajuda de outras pessoas, mas ainda nos sentimos péssimos. Porque esse sentimento de plenitude não vem de fora. Assim, como indivíduos isolados que somos, como egos, seres humanos sobre a Terra, pensamentos nos afligem. E estes pensamentos e emoções nunca têm a ver com o momento presente, eles se referem sempre ao passado ou ao futuro. </p>
<p>Se você está meditando e observando seus pensamentos surgirem, você pode ver claramente que esses pensamentos têm algo a ver com o passado ou com o futuro. É impossível pensar sobre o momento presente. No instante em que você está pensando sobre o momento presente, você já está pensando sobre algo que aconteceu um instante atrás. A reflexão é sempre posterior. Qualquer pensamento que surja tem origem na história que carregamos conosco, ou nos desejos e medos de algum acontecimento futuro. E portanto, não é livre, não é original, não é presente. Pensamentos não são bons ou ruins em si, pouco importa o que podemos pensar deles. A prática é aprender a viver completamente no momento presente, que significa a Mente Original, e não simplesmente reagir aos pensamentos (ou segui-los) que nos separam do espaço e do tempo atuais. </p>
<p><strong>Uma outra definição: o sr. usou a palavra universo ou universal; poderia explicar isso?</strong></p>
<p>As pessoas crêem que o universo é uma entidade física, e que, é claro, há uma manifestação física que os cientistas chamam de &#8220;o universo&#8221;. Mas todos sabemos que quando estamos ao ar livre e olhamos para o céu, quando observamos &#8220;o universo&#8221;, temos uma estranha sensação. &#8220;Até onde ele se estende?&#8221;, você sempre se pergunta. Bem, ele se estende infinitamente! O espaço não tem fim. E isso é totalmente ilógico. Não se encaixa a nenhum conceito que possamos ter. O termo &#8220;infinito&#8221; nos faz ultrapassar o conceito. É uma espécie de violação do pensamento lógico, algo que não pode ser logicamente concebido. Assim, quando eu falo &#8220;Universal&#8221; ou &#8220;Universo&#8221;, eu me refiro a um infinito que não pode ser compreendido com uma mente lógica e racional. A definição adequada de Universo seria uma anti-definição. Isto é, não é algo que se possa conceber. Está além dos limites. Não há princípio para o tempo, assim como pode não haver fim. O mesmo vale para o espaço: não há princípio no espaço; pode não haver um fim. O mundo dualista, este mundo relativo em que vivemos é um artefato, baseado na idéia de que há um fim ou limite no tempo e no espaço. Quando, na realidade, nós sabemos que não há. Isso produz um tipo de contradição em nós, e qualquer ser humano sensível, mais cedo ou mais tarde, percebe essa contradição e se pergunta &#8220;Como isso é possível? Como posso viver minha vida de acordo com meus sentidos, meu paladar, meu olfato, minha audição, meu tato, minha visão, meus sentimentos? Como posso viver minha vida desta forma, conforme as leis da realidade que percebo através dos sentidos? E essa realidade me diz que há um tempo estruturado, um espaço organizado. Há um fim para tudo. E ao mesmo tempo o infinito sugere algo totalmente diferente!&#8221; </p>
<p>Não estou dizendo com isso que o mundo que nós percebemos, em que vivemos e trabalhamos, não existe. Mas digo que ele é uma extensão lógica e útil de algo que é muito maior, muito mais profundo e misterioso. Nós todos conhecemos o mundo dualista dos sentidos, mas o mundo não-dualista precisa ser experimentado &#8212; o Universo não-dualista, que chamamos de Mente Original, da qual todas as manifestações se originam, não anos atrás, mas a todo instante. </p>
<p><strong>De volta ao Aikido, como o sr. vê o Aikido em relação à sociedade?</strong></p>
<p>Eu acho que se trata de uma arte muito especial, graças a Tohei Sensei. Porque nunca houve, no ocidente ou no oriente, um método claro e objetivo de descobrir, por nós mesmos, o verdadeiro estado de nossas mentes. No passado isso era transmitido de mestre para discípulo, de um modo muito íntimo e particular. Mas agora, como Tohei Sensei desenvolveu os testes de Ki, há um meio de cada pessoa verificar sua própria condição, há um meio de perceber seu estado atual. E isso desperta e estimula em nós um senso de Unificação Mente-Corpo. </p>
<p>Como eu disse antes, o corpo é reflexo da mente. Digamos que você está parado em pé e eu aplico um leve esforço em seu peito. Primeiro você tem vontade de resistir a esse esforço, uma espécie de combate, como eu dizia antes. Você será desequilibrado facilmente. Essa vontade de resistir surge em sua mente porque você quer vencer! Você quer fazer isso por si próprio, você quer &#8220;passar&#8221; no teste de Ki. Contudo, isso não tem nada a ver com &#8220;passar&#8221;, mas sim compreender o processo através do qual a mente nos torna o que somos. Essa é uma prática simples que nos mostra como realmente somos. E no momento seguinte você pode se desequilibrar, conforme aumento o esforço em você, sua força pode terminar e você pode cair para trás. São dois momentos. O primeiro é o de resistência, há a sua intensidade e você a usa para resistir. Não é intensidade, é apenas resistência ao teste. Enquanto que no segundo momento, quando você finalmente é superado pelo esforço que lhe foi aplicado, você pode ter uma sensação de profunda calma. Você pensa que o mundo é maior do que você. Você cai porque a pessoa que lhe testou tem muita força. Isso é uma espécie de passividade. A serenidade é algo positivo, mas tem sido incompreendida e usada de forma errada. Em vez desses dois tipos de reação ao esforço, nós simplesmente nos permitimos ficar no estado em que nós naturalmente estamos. Não tentamos mudar esse estado, ficamos calmos e relaxados, mas permitimos uma grande intensidade, que perpassa o universo e nos preenche. Podemos imaginar que não estamos limitados pela pele que aparentemente acomoda o nosso corpo. Podemos nos identificar com todo o espaço do Universo Infinito. Isso nos permite mover-nos conforme nosso desejo. Tohei Sensei desenvolveu três princípios que falam do Universo. O primeiro princípio diz que o Universo é uma esfera infinita com raio infinito; o segundo diz que o Universo é uma reunião de partículas infinitamente pequenas; e o terceiro diz que o Universo está sempre mudando ou que o Universo está sempre em movimento. Os físicos dirão que o mundo microscópico (atômico ou subatômico) está se movendo a velocidades incríveis. Sabemos que a Terra gira a mais de 3000km/h, e que traslada ao redor do Sol a uma velocidade ainda maior. Tudo no Universo está se movendo velozmente e com grande intensidade a todo instante. Entretanto, nós não percebemos isso. Simplesmente ignoramos estes fatos. Mas isso pode ser percebido, quando relaxamos e acalmamos nossa mente. Começamos a ter a sensação de que há uma intensidade oculta que pode ser, no início, um poder muito assustador. E o que identificamos como &#8220;poder&#8221; nada mais é do que a Energia Universal. Assim, relaxamos e mantemos a naturalidade e não tentamos mais competir ou derrotar; não tentamos mais resistir. E ao mesmo tempo não nos sujeitamos ao esforço que nos é aplicado, ou fugimos dele. Apenas mantemos nossa integridade, nosso estado natural, poderoso e positivo, e descobrimos que estamos totalmente enraizados. Pressiono seu peito e você não se move. Chamamos isto de teste de Ki. Claro que o fazemos em várias posições: inclinar para frente, para trás, segurar os braços, torná-los inflexíveis, e os princípios funcionam da mesma forma o tempo todo. Estamos sempre procurando estas três alternativas: 1) intensidade resistente; 2) sujeição serena; ou 3) o que chamamos de serenidade vívida ou Seishi. A palavra japonesa para calma vívida é Seishi, que nada mais é do que estar no estado de Reiseishin (mencionado anteriormente), um estado natural de existência, sem permitir o desejo de ser mais ou melhor ou diferente daquilo que você é neste exato momento. Nunca perturbe a equanimidade e nunca sacrifique sua integridade. Assim todos podem passar por esse teste, você não tem que ser um expert. Você pode vir ao dojo pela primeira vez, eu mostrarei como fazer o orenaite (braço inflexível). Mostrarei como enraizar o corpo, de modo que eu não possa levantá-lo do chão. Mostrarei como manter o Ponto-Um e relaxar completamente. Assim, quando eu o empurrar, você não se moverá. Você pode ter essas experiências desde o primeiro dia. É algo maravilhoso!</p>
<p>Tohei Sensei desenvolveu estas formas de mostrar, através do corpo, qual é o estado real da nossa mente. E como eu disse, nunca tinha sido feito dessa forma. Esses métodos têm diversas aplicações possíveis em educação. Você sabia que Richard Riley, o Secretário de Educação dos Estados Unidos [nos anos 90, durante o governo de Bill Clinton] é um grande entusiasta dos princípios da Unificação Mente-Corpo? Ele aprendeu os testes de Ki e ficou tão impressionado que criou um projeto que pretende levar a Unificação Mente-Corpo para as escolas de ensino fundamental nos EUA. Atualmente, gastamos muito tempo nas escolas ensinando as crianças a se movimentar, a usar o corpo; também gastamos muito tempo ensinando-as a usar a mente. Mas estas coisas quase sempre são feitas separadamente. Poucas vezes são feitas juntas, como por exemplo em esportes em que você pode ter que aprender a estender sua mente enquanto corre ou disputa algum tipo de jogo. Mas, mesmo nestes casos, isso só acontece durante a atividade. Assim que ela acaba, acaba também a coordenação entre mente e corpo, que não foi ensinada como um Princípio. Além disso, muitos técnicos estimulam um sentido de aquisição pessoal, de obtenção agressiva em seus alunos. E os testes de Ki não sugerem ou encorajam nenhum tipo de progresso que já não exista em você. Nós dizemos &#8220;Eu já sou bom!&#8221;. Mente e corpo já estão unificados, nós apenas esquecemos disso! Nós esquecemos porque nós aceitamos nossas deficiências, e aceitamos a realidade que nossos sentidos nos transmitem. Você acha que algo tem que mudar e que você precisa melhorar. De alguma forma você acha que precisa obter algo para preencher o vazio que sente. Mas isso não é verdadeiro. Não há nenhum ganho necessário. Toda busca nos desloca do aqui-e-agora. A sensação de vazio é um erro, uma noção errada! Ela nos afasta da realidade, daquilo que realmente somos. Assim, todos nós devemos encarar o que realmente somos, transformarmo-nos naquilo que sempre fomos, mas esquecemos. Esse é o sentido dos testes de Ki e como eles são úteis para cada um de nós, para aprendermos sobre quem realmente somos. </p>
<p><strong>Há um tempero cultural no Aikido. De um modo geral ele se baseia na cultura e nos valores japoneses. Assim, como o sr. vê o desenvolvimento futuro do Aikido?</strong></p>
<p>Quando eu era um aikidoka principiante, muitos anos atrás, eu estava em uma festa em Honolulu com Tohei Sensei. Eu tive muita sorte de estar ao lado dele naquele momento. Perguntei-lhe sobre o Aikido e ele me contou algumas histórias sobre o significado da arte. E no final da nossa conversa, a última coisa que ele me disse foi &#8220;Meu jovem, o futuro do Aikido está no Ocidente!&#8221;. Achei muito interessante ele ter dito aquilo, e nunca esqueci aquele dia. Naquela época eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Acho que ele não pretendia excluir o Japão, mas tinha uma forte intuição de que a cultura ocidental precisa de um método para unir as tradições espirituais do Oriente e as tradição científica do Ocidente, e o Aikido pode ajudar nisso. Ok, isso não significa que não tenham existido tradições espirituais no Ocidente. Mas no Ocidente &#8212; Europa e América &#8212; o homem tem se esforçado para desenvolver a ciência e a tecnologia. E podemos ver aonde isso tem nos levado! Por causa da irresponsabilidade, corremos o risco de destruir o meio ambiente. Isso não implica, de modo algum, desmerecer os maravilhosos confortos da vida moderna. Eu não abandonaria a odontologia moderna por nada. Eu acabaria tendo dentes fracos! Sou muito grato pelos avanços da medicina. Pessoalmente, devo dizer que os médicos ocidentais já me salvaram a vida uma vez. Eu teria morrido se não fosse a moderna tecnologia. Eu nem poderia estar aqui para dizer isso. Sou muito grato por isso, e sou muito grato por ter uma boa dentição. E também sou muito grato por poder viajar de avião até a Europa, e encontrar pessoas maravilhosas, ensinar Aikido e compartilhar o que sei com vocês. Todas estas coisas são maravilhosas. Mas, em si, como eu dizia, elas não são adequadas para uma coisa. Se não as usamos apropriadamente, como eu disse, estamos vendo agora que podemos destruir o ambiente em que vivemos. Assim, acho que o futuro do Aikido no Ocidente tem um papel muito significativo para desempenhar. Este papel pode estar em mostrar essa simples ligação entre mente e corpo, esta ligação entre o mundo interior e o mundo exterior, de uma forma observável e ocidental. Tohei Sensei descreve isso como um iceberg. Ele diz &#8220;Olhamos nós mesmos como olhamos um iceberg. Vemos a ponta do iceberg acima da água. E basicamente pensamos que apenas a ponta é o iceberg&#8221;. Mas na verdade a parte que está sobre a água é a menor parte do iceberg. O iceberg possui uma grande quantidade de gelo que permanece sob a superfície do oceano. Isso é o que sabemos sobre um iceberg. E pensarmos na condição humana, a ponta do iceberg pode ser vista como nosso ego, aquela parte de nós que se identifica apenas com o mundo dos sentidos. O mundo interior, aquele que fica escondido, pode ser comparado com a parte do iceberg que permanece sob a água, a não ser pelo fato de que no ser humano o mundo interior não é apenas maior que a &#8220;ponta do iceberg&#8221;, mas infinito em tamanho. A razão disso é que esse mundo interior é a conseqüência direta da Mente Original, da Mente ou Realidade Universal. </p>
<p>É bastante difícil conversar sobre isso. É verdade que posso falar disso praticamente para sempre, mas não posso dizer exatamente o que é. Lao Tsé dizia &#8220;Aquele que fala não sabe. Aquele que sabe não fala&#8221; e então ele escreveu montes de livros sobre isso! Podemos conversar sem parar sobre esses assuntos. Mas se tentamos dizer &#8220;É isso&#8221;, se tentamos defini-lo, apontá-lo, se eu tentar responder exatamente o que você me pergunta &#8212; &#8220;O que é a mente?&#8221; &#8212; e se eu tentar explicar exatamente o que é o universo e dizer &#8220;É isto&#8221;, então estarei errando. Porque não há como definir tais coisas. É como tentar pisar num sabonete durante o banho: ele escorrega para longe de você. Quando você acha que apreendeu esses objetos, na realidade não os apreendeu. É um processo de constante aprofundamento &#8212; de um modo muito humilde, sincero, devotado e compromissado. Aprofundar-se é como explorar de um modo muito pessoal e íntimo; uma exploração muito profunda que nos leva além, através e além de nossos medos. Quando nos aprofundamos, perdemos os medos e carregamos conosco a coragem que descobrimos ter ao olhar nossa natureza e observar as deficiências que temos, o modo como usamos as pessoas para conseguir amor delas. &#8220;Quero isto de você, isto de você e isto de você&#8221;. Mas a vida plena está em outro lugar: dar, sempre entregar-se às outras pessoas. </p>
<p>Deveríamos oferecer o Kiatsu a todas as pessoas que encontramos. Kiatsu significa pressionar com Ki. Às vezes aplicamos Kiatsu pressionando com o polegar partes do corpo de uma pessoa machucada ou enfraquecida para aplicar-lhe o Ki e ajudá-la a se curar. Mas além disso, penso na vida como o Kiatsu: quando uso minha voz, quando encontro pessoas, o modo como me direciono a elas, como direciono meu peito, o lugar em que está meu coração; o modo como olho a outra pessoa; o sentimento que tenho por ela, o pensamento que nutro por ela. Isso tudo também é um tipo de Kiatsu. Mesmo que ela não esteja diante de mim. Minha esposa está em Maui. Quando penso nela, eu penso desta forma: estou lhe oferecendo Kiatsu. Estou estendendo meu Ki, meu amor, minha apreciação e minha gratidão para ela. Então, na próxima vez que eu a encontrar, isto se manifestará para mim. Como tratamos uma pessoa em nossos pensamentos, ou pessoalmente, como olhamos alguém, como nos sentimos em relação a essa pessoa; como usamos a voz com essa pessoa, nossos olhos, a gentileza de nosso rosto e do corpo em relação às pessoas. Isso é oferecer, oferecer, oferecer o tempo todo. Isso não tem fim. E se você fizer isso, nunca se sentirá cansado, isso nunca o esgotará. Obtenha e acumule, e você se sentirá esgotado. Você pode pensar o contrário, mas quanto mais possuímos, mais nos esgotamos. Este é o paradoxo.</p>
<br />Publicado ementrevistas, textos Tagged: chris curtis, entrevista, hawaii, maui <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/69/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/69/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=69&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Atingindo a faixa preta</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:09:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Extraído do Shinzen Shinbun nº3 Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, freqüentemente dizia “Ganhar é sofrimento, perder é iluminação”. Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=66&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Extraído do Shinzen Shinbun nº3</p>
<p>Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, freqüentemente dizia <em>“Ganhar é sofrimento, perder é iluminação”</em>. Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo por sua arte e sua prática, famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, para desenvolverem-se a si próprios. Hoje, eles apenas pensam em ganhar. “Eu quero isso, eu quero aquilo”. Nós queremos praticar artes marciais mas também queremos dinheiro, fama, telefones celulares e tudo que qualquer um possa ter. </p>
<p>Quando o estudante olha o seu treinamento do ponto de vista da perda em vez do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria, e verdadeiramente torna-se valoroso como faixa preta. Só quando você finalmente desiste de seus pensamentos sobre exames de faixas, troféus, fama, dinheiro, e a própria maestria na arte, você alcança que o mais importante é sua PRÁTICA. Seja humilde, seja gentil, cuide dos outros e ponha a todos adiante de você. Estudar arte marcial é estudar você mesmo – seu verdadeiro EU. Isto nada tem a ver com graduações. </p>
<p>Um grande mestre zen disse uma vez: <em>“Estudar o EU é esquecer o EU. Esquecer o EU é compreender todas as coisas”</em>.</p>
<br />Publicado emtextos Tagged: budo, faixa preta, zen <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/66/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/66/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=66&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Aikido de superície, Aikido de coração</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:07:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<category><![CDATA[cooperação]]></category>
		<category><![CDATA[jesus]]></category>
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		<description><![CDATA[por Christian Rocha Um dos aspectos mais importantes do Aikido é ao mesmo tempo um dos menos discutidos e pronunciados. Suas implicações são sérias e ocorrem em várias esferas do treinamento, desde a mais técnica à mais teórica. Refiro-me ao princípio da cooperação. Cooperar não significa apenas não-competir. Dizer que o Aikido não é competitivo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=64&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Christian Rocha</p>
<p>Um dos aspectos mais importantes do Aikido é ao mesmo tempo um dos menos discutidos e pronunciados. Suas implicações são sérias e ocorrem em várias esferas do treinamento, desde a mais técnica à mais teórica. </p>
<p>Refiro-me ao princípio da cooperação. Cooperar não significa apenas não-competir. Dizer que o Aikido não é competitivo diz algo a respeito da arte, mas ainda é muito pouco diante daquilo que Morihei Ueshiba propunha com seus ensinamentos. Por isso é importante dizer com todas as letras: o Aikido é uma arte marcial cooperativa. Isto significa muito mais do que não competir; significa ajudar, unir-se ao parceiro de treino e trocar dúvidas e experiências. </p>
<p>A confusão nasce quando nos deparamos com as exigências marciais do treinamento. Aikido é arte marcial. Como conciliar a marcialidade com a cooperação? Quando a discussão chega a este ponto &#8212; e ela invariavelmente esbarra neste ponto polêmico &#8211;, a maioria dos mestres menciona duas palavras importantes para todo treinamento marcial: sinceridade e respeito. A sinceridade pressupõe ataques verdadeiros e defesas verdadeiras, coisas que conduzem a um treino verdadeiro, em que ambos &#8212; uke e nague &#8212; colocam atenção e energia integrais ao exercitar uma técnica. O respeito significa que para tudo há um limite, que embora sincero, o ataque não visa o mal (nas intenções e nos métodos). Na prática, isto significa que os ataques são treinados com o máximo de realidade possível e ao mesmo tempo respeitam a ação do nague tão logo sua eficiência se mostre. Em outras palavras, quando uke sente que a ligação aconteceu (isto é, que a técnica começou a acontecer eficientemente), este não recorre a outras formas de ataque. </p>
<p>Soa grotesco, mas numa situação de violência total o oponente poderia recorrer, por exemplo, a puxões de cabelo, cuspes, mordeduras e beliscões. No Aikido não se treinam defesas contra tais ataques. Isto significa que o reigi representa (ou melhor, rege) a elegância com que a arte será desenvolvida. Muitos mestres falam que um bom aikidoka é aquele que executa as técnicas com eficiência e elegância &#8212; o que vale também para o uke, que assim é impedido de atacar de formas pouco nobres.</p>
<p>A cooperação não é conseqüência do respeito, da sinceridade, da eficiência e da elegância, mas, ao contrário, é a cooperação que determina tais virtudes. O bom aikidoka é aquele que sabe interagir: fazer Aiki, como dizem os mestres, ou cooperar.</p>
<p>A questão, a partir daqui, seria a seguinte. A cooperação pode ser praticada como um procedimento técnico, como um modus operandi. Pode, em outras palavras, permanecer na superfície do aikidoka. O treino pode acontecer adequadamente, até com harmonia, elegância e gentileza de ambos os lados. Contudo, que valor há nisso se o aikidoka não interiorizou o princípio da cooperação?</p>
<p>Isso remete às palavras de Jesus: </p>
<blockquote><p><em>O que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.</em> (Mt 15, 18-19)</p></blockquote>
<p>Ou ainda:</p>
<blockquote><p><em>Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.</em> (Mt 23, 28)</p></blockquote>
<p>É assustadoramente comum aikidokas &#8212; mesmo os mais experientes &#8212; treinarem em clima de amistosa interação mas, ao mesmo tempo, não se suportarem pessoalmente. Às vezes basta o treino terminar para reinar uma estranheza incômoda, como se as pessoas não tivessem treinado juntas minutos atrás. A cooperação, neste caso, é epidérmica e cínica. Ela acontece tão-somente por uma conveniência do treinamento, não por uma honesta disposição de cooperar, e não chega a modificar o caráter do aikidoka. </p>
<p>A principal contribuição de Jesus foi justamente essa: interiorizar a lei, tornar seu cumprimento uma disposição inevitável do caráter. Aquele que cumpre a lei mas não a interioriza, isto é, aquele que peca em pensamento já pecou. Traduzido para a linguagem marcial: aquele que pratica a cooperação com a mente e o espírito competitivos não está sendo verdadeiramente cooperativo. </p>
<p>Minha dúvida &#8212; eis o que me moveu a escrever estas linhas &#8212; é: o que poderia facilitar a interiorização desse princípio, o que poderia facilitar sua absorção pela mente e pelo espírito? </p>
<p>Não me parece um tema sem importância. Alguns dirão que mesmo a prática cínica pode conduzir o aikidoka à interiorização do princípio da cooperação. De um modo geral, é o que acontece com as técnicas do Aikido: o aluno as treina, ainda que sem consciência do que faz, de como o corpo se move. Ele apenas repete as técnicas sem preocupações em relação ao funcionamento, ao método, aos fundamentos e objetivos daquela prática. Ele apenas sabe que aquilo é correto e/ou bom e o realiza. Com a prática vem a compreensão. Entramos pela forma e saímos através dela. Na prática das técnicas do Aikido isto é bastante comum. </p>
<p>Na absorção dos fundamentos e conceitos do Aikido, as coisas acontecem de outra forma. Muitos conceitos não têm forma definida e por isso não podem ser totalmente transmitidos sem o auxílio da comunicação verbal e da razão. Pode-se, como disse antes, encontrar um aluno avançado de Aikido ainda impregnado de competitividade, aprisionado a léguas de distância dos princípios mais elementares da arte. Onde está a causa disso: nos alunos que avançam desta forma, nos instrutores que permitem tal avanço, na metodologia da arte ou na própria arte? O que permite o surgimento de aikidokas vazios de espírito, distantes do espírito de cooperação e de união tão pronunciado por O-Sensei?</p>
<p>Na tradição cristã, foi necessário o surgimento de um avatar que falasse objetivamente da importância da interiorização das leis. Com Jesus, os Dez Mandamentos saíram das tábuas sagradas e alojaram-se na alma dos homens. Não de todos, nem da maioria, evidentemente. </p>
<p>No budô, foi necessário o surgimento de um grão-mestre disposto a ressuscitar a espiritualidade nas artes marciais. O Aikido é fruto desse esforço de unir efetivamente a tradição das artes marciais à espiritualidade oriental. Neste sentido, é emblemática a decisão de O-Sensei de se retirar para Iwama, em 1942, onde o Aikido obteve a forma com que foi divulgado pelo mundo, resultante de uma soma harmônica entre técnica, espírito e razão. O problema é que em muitos dojos isso raramente é dito, ou, quando é dito, raramente é compreendido de modo a superar o espírito competitivo do ser humano. Sabe-se que o espírito humano é campo fértil para todo tipo de disputas. Se não existe um esforço no sentido de promover o desenvolvimento do espírito cooperativo, o espírito competitivo não apenas prevalecerá, como continuará crescendo ao ponto de prejudicar o treinamento marcial.</p>
<p>Como o próprio Aikido demonstra, grande energia despendida para modificar o espírito competitivo criará um esforço de reação, em sentido oposto e de igual intensidade. O que proponho &#8212; se é que este escrito pretende ser uma proposta &#8212; é bastante simples: que palavras sejam ditas sobre o espírito cooperativo, que se diga que a cooperação está dentro do espírito de Aiki e que o treinamento cooperativo é uma das formas, talvez a principal, de se praticar o amor e a paz, pedras fundamentais da arte desenvolvida por mestre Ueshiba.</p>
<br />Publicado emtextos Tagged: cooperação, jesus, ueshiba <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/64/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/64/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=64&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>De mestres e professores</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2008 19:05:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Christian Rocha Uma das coisas mais perigosamente sedutoras no conhecimento é o desejo de lhe dar uma forma pessoal. Normalmente essa modelagem acontece no ensino, quando a necessidade de transmitir o conhecimento nos obriga a essa tarefa. Neste ponto tendemos a confundir a forma e o conteúdo do conhecimento. Não chegamos ao absurdo de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=62&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Christian Rocha</p>
<p>Uma das coisas mais perigosamente sedutoras no conhecimento é o desejo de lhe dar uma forma pessoal. Normalmente essa modelagem acontece no ensino, quando a necessidade de transmitir o conhecimento nos obriga a essa tarefa. Neste ponto tendemos a confundir a forma e o conteúdo do conhecimento. Não chegamos ao absurdo de tomar para nós a autoria do conhecimento, mas exigimos, conforme o manipulamos, status semelhante ao dos autores. </p>
<p>Há professores que são verdadeiros criadores de conhecimento. A modelagem do conhecimento é uma atividade semelhante à invenção: o que o cientista faz é criar uma teoria ou uma técnica com base num repertório existente; pode-se dizer que o cientista faz uma tradução ou uma nova leitura desse repertório. O professor, de modo análogo, transforma um repertório de modo que ele possa ser usado por outras pessoas. </p>
<p>Mas professores não são mestres, como dizia um mestre de Aikido: &#8220;professores ensinam, mestres inspiram&#8221;. A marca do mestre — e talvez seja esta a diferença fundamental entre este e o professor — é a capacidade de reconhecer e transmitir as bases do conhecimento. Falando mais metaforicamente: diante de um homem faminto, o leigo oferece um peixe, o professor ensina a pescar, o mestre mostra o sentido do apetite, da nutrição e da pesca. Não é que não exista um lado prático no ensinamento do mestre ou um lado profundo nas lições do professor, mas o trabalho deste está por demais impregnado de objetividade, quando na realidade o conhecimento tem natureza egoísta, não admite ser utilizado ou transmitido para um determinado fim que não seja a manutenção de sua própria existência. Assim como a vida, o conhecimento vive de si mesmo e para si mesmo, permanece numa evolução lenta e sutil, criando meios para que essa evolução continue indefinidamente. Mas a objetivação do ensino prejudica o conhecimento. Sua ruína está nas escolas e universidades, monumentos ao ódio ao conhecimento. Educar não é o mesmo que transmitir conhecimento; freqüentar aulas não é o mesmo que estudar. Estas são atividades nobres; aquelas são atividades cuja necessidade nasceu com a modernização da vida. </p>
<p>Há dois fatores que tornam importante o ensino acadêmico. Primeiro, a facilidade de instrumentação e de educação. Não há nada como o ensino acadêmico para civilizar um indivíduo, mostrar-lhe, com professores, bibliotecas, laboratórios e o convívio social, o que é ser um cidadão. Se você quer conhecer meios, técnicas, ferramentas, mecanismos (sobretudo os teóricos), seu lugar é o ensino acadêmico. Segundo, o ensino acadêmico é a melhor forma de compor um repertório socialmente aceito, elemento indispensável para aqueles que esperam compreender, criticar e modificar o mundo. </p>
<p>Logo se vê por que homens verdadeiramente sábios se dedicam com igual intensidade ao conhecimento e à meditação. A meditação tem para o conhecimento papel semelhante ao do sono para a vigília. Sem a meditação (i.e., sem o silêncio, a reflexão filosófica, a oração, o zazen etc.) o conhecimento não pode ser adequadamente digerido, permanece tal qual foi recebido. Logo se vê também por que há tantos professores e tão poucos mestres. Quem hoje é capaz de ensinar pelo exemplo ou pelo silêncio?</p>
<br />Publicado emtextos Tagged: didática, discípulo, ensino, mestre <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/aikidoilhabela.wordpress.com/62/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/aikidoilhabela.wordpress.com/62/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=aikidoilhabela.wordpress.com&amp;blog=5249090&amp;post=62&amp;subd=aikidoilhabela&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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